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domingo, agosto 25, 2013

Somos Tão Jovens

 
Cintia já viu o filme Somos Tão Jovens, que eu ainda não vi, mas certamente pretendo, e me contou algumas coisas gerais sobre ele, evitando spoilers, como costumamos dizer. Ela comentou que houve coisas que não entendeu e sentiu que uma pessoa ligeiramente mais velha teria entendido, porque viveu a "época". Acho que é isso mesmo, pois, sendo alguns anos mais velho que ela, tive tempo de ver o Legião Urbana, se não no auge, ainda como uma das bandas mais expressivas do rock nacional, isso no fim dos anos 80 e início dos 90, época de minha adolescência. Ela também comentou que, se Renato Russo era mesmo como foi retratado no filme, deve ter sido uma pessoa difícil de lidar. Tenho a impressão de que ele o foi de fato até certa altura; nos últimos anos de sua curta vida, já dava a impressão de uma pessoa mais dócil e tratável, o que me faz lembrar a frase célebre de Cícero: "Os homens são como os vinhos: a idade melhora os bons e azeda os ruins". E creio que com 36 anos - idade em que o "profeta" do Legião despediu-se deste mundo - qualquer pessoa já tenha idade suficiente para ter-se tornado o que tiver de ser.
 
Como fã, na época, não deixei de ler algumas entrevistas que Renato concedeu a revistas musicais, e, embora a maior parte do que ele disse já me haja, inevitavelmente, fugido da memória há muito tempo, algumas coisas ficaram. Uma dessas foi que, tendo ele falado de sua tendência à depressão, o entrevistador perguntou se achava que compunha melhor quando deprimido, e a resposta: "Claro!" Mesmo aos 17 anos, o perigo disso me saltou aos olhos, e o que vi mais tarde o confirmou.
 
Pessoas de sensibilidade extraordinária sofrem muito neste mundo, que, evidentemente, não foi feito para elas. Sofrem por não encontrar respostas para perguntas que as outras pessoas nunca se fizeram, sofrem por se sentirem diferentes e não saberem por que, sofrem porque a maioria não as entende, sofrem por não serem capazes de aceitar e confiar quando encontram alguém que entende, e sofrem pela simples grosseria e brutalidade da realidade que as cerca. Quando, além de uma sensibilidade extraordinária, têm a sorte de também possuir talento artístico (pois as duas coisas nem sempre andam juntas), elas muitas vezes fazem disso um refúgio e uma forma de cura, uma maneira de reorganizar seu mundo de uma maneira que faça sentido para elas. Há também aqueles (e desconfio que sejam a maioria...) que ficam apenas com a parte ruim da coisa: têm a sensibilidade que faz alguém aspirar a ser um artista, mas não o talento que torna isso possível. A esses, resta encontrar o conforto que lhes for possível em obras como aquele poema de Thiago de Mello, e fazer o que estiver ao seu alcance para dar algum sentido a esse furacão de pensamentos e sensações não-expressos, e tentar tirar deles algo de positivo.
 
A bênção do artista, seja ele músico, poeta, pintor, ou o que for, é conseguir transformar sua angústia em algo bonito e de valor - e isso é uma bênção para ele e para a humanidade. Para o artista, essa metamorfose, embora dolorosa, traz, ao fim do processo, uma satisfação que talvez não se compare a nenhuma outra coisa na vida. Para a humanidade, ela presta o grande serviço de trazer à existência coisas que façam todo o cansaço e sofrimento que enfrentamos valer a pena. Falando por mim, digo que um mundo feito de trabalho exaustivo, notícias ruins, frustrações, poluição, pessoas ignorantes e mal-educadas, e onde, além de tudo isso, não existissem Homero, Bach, Leonardo da Vinci, Tolkien e (por que não dizê-lo?) o Legião Urbana, não seria um lugar onde a vida fosse tolerável.
 
Até aí, tudo parece OK, ou, ao menos, tão OK quanto possível. A pessoa sensível e dotada de talento tem a arte como válvula de escape, que, além de aliviar sua angústia, produz beleza e sentido, coisas importantíssimas. De certa forma, são coisas ruins e boas compensando-se mutuamente, o que talvez seja apenas, e mais uma vez, a natureza buscando maneiras de restabelecer o equilíbrio, como ela costuma fazer. O problema - o perigo, como eu dizia ao falar de Renato Russo - começa quando uma pessoa dotada da angústia do artista (acompanhada ou não de talento, tanto faz) se apaixona pela própria angústia, pelo próprio sofrimento. Então a arte, ou qualquer canhestra, porém honesta tentativa de produzi-la, deixa de ser uma terapia, um remédio, uma cura, e vira uma espécie de veneno. A pessoa passa a procurar voluntariamente se angustiar e deprimir porque acha que assim "produz" melhor, ou, o que é ainda mais pernicioso, porque isso faz com que se sinta "especial". Então ela passa a só enxergar o que lhe causa dor, porque a dor "inspira". Fecha a porta à felicidade, porque ser infeliz é mais "poético".
 
Em minha vida já vi diversas pessoas (fossem artistas que eu admirava ou pessoas com quem convivi) caírem nessa armadilha, e nenhuma delas terminou bem. Não tem como terminar bem alguém que vira as costas à mão estendida de um amigo para poder fechar-se em sua solidão e então escrever um belo (?) poema sobre ela. Não tem como terminar bem alguém que recusa um ombro e um ouvido carinhosos para não ter que abrir mão do prazer distorcido de poder sentir que "ninguém o entende". Felizmente, não se trata de uma armadilha sem saída: algumas dessas pessoas caíram em si a tempo e compreenderam que as alegrias simples da vida, se não são tão duradouras quanto as grandes realizações, podem, muitas vezes, trazer a mesma satisfação. Que essas alegrias estão aí para todos e que não há nada de errado em aceitá-las com gratidão. Que definhar em sofrimentos desnecessários é um preço alto demais a pagar para sentir-se especial. E que dor, saudade, melancolia, fazem parte de nossa condição humana. Aceitá-las torna menos doloroso lidar com elas, e, se conseguirmos transformá-las em matéria-prima de algo belo e duradouro, então excelente: esse é o maior prodígio de alquimia que pode existir. Mas acostumar-se à dor ao ponto de começar a gostar dela jamais fez de ninguém uma criatura melhor.

domingo, junho 20, 2010

Escrevei para entendê-las...

Seria de se esperar, com base na boa e velha lógica, que um cara que tem uma maioria de amigas, e poucos amigos, como é o caso deste que aqui digita seus confusos pensamentos, tivesse à sua disposição um panorama ilustrativo do universo feminino e melhores condições de entender como funciona a mente (e, muito mais importante, a alma) dessas fascinantes e enlouquecedoras (no bom e no mau sentido) representantes da metade da humanidade dotada de ovários. Acontece que, como em tudo relacionado às mulheres, a lógica simplesmente não funciona nesse caso.

Não espero que ajam com perfeita coerência, primeiro porque isso tiraria delas a natureza emotiva que é em grande parte a responsável por torná-las tão interessantes, e, segundo, porque acho que ninguém deveria exigir de outrem algo que também não é capaz de fazer, mas será que mexeria com a ordem do universo se existisse pelo menos uma que não agisse sempre de maneira tão estapafúrdia que, por totalmente imprevisível, acabasse se tornando previsível? (Pois, depois de um certo número de vezes ficando perplexo com os atos delas, você acaba compreendendo que só precisa perguntar-se qual seria a conduta mais absurda e sem sentido imaginável numa determinada situação, e sempre esperar isso delas. E pronto: não será mais pego de surpresa.) Sairiam os planetas de suas órbitas se porventura aparecesse uma única mulher que sentisse ao menos um pequeno desconforto cada vez que fizesse uma promessa solene para depois não a cumprir, em vez de aparentemente considerar isso uma prerrogativa de seu sexo? Ou que, antes de fazer promessas, tirasse um instante para se perguntar se iria ou não cumpri-las e, em caso negativo, não prometesse?

Quando eu tinha uns 13 anos, apareceu no meio da minha turma da escola uma publicação muito interessante que circulou de mão em mão, apenas entre os garotos - não, não era revista de sacanagem. Tratava-se de um livrinho que se propunha a ensinar macetes de como conquistar as garotas. Pouco lembro do que li nele, e o que lembro me parece, hoje em dia, ser um apanhado de coisas que não iam muito além do simples bom senso (não que, naquela idade, nós tivéssemos algum). Mas lembro que o livro era salpicado de frases de efeito, e, como na época eu já era maníaco por citações, algumas me ficaram na memória. Uma delas dizia que as mulheres são tanto melhor amadas quanto pior compreendidas. Só muitos anos depois é que eu fui perceber toda a verdade que existe por trás desse pequeno e aparentemente absurdo aforismo.

Pois a verdade, meus caros (e agora dirijo-me aos meus colegas usuários de Prestobarba) é que as meninas não querem ser compreendidas. Ou melhor, até querem, mas só pelos amigos. Não se esforce para entendê-las: de qualquer forma, é pouco provável que consiga, e, se conseguir, isso só fará com que elas deixem de vê-lo como um ente masculino - você vai virar um amigo, e, para a mulher, amigo é um ser assexuado. Um homem pode vir a apaixonar-se por uma amiga, mas nunca o contrário: para uma mulher, a partir do momento em que ela passar a te considerar um amigo, qualquer possibilidade de algo mais definitivamente morreu. Para nós, a companheira desejada é uma em quem confiemos; para elas, nada existe de mais antiafrodisíaco que confiança. Isso é o que faz o cara cafajeste tão irresistível e o sincero tão sem graça. Pessoalmente, penso que a namorada, companheira, amante, esposa adequada (e notem que eu não disse "ideal", pois isso não existe) seria aquela que, além de ser todas essas coisas, fosse também minha melhor amiga, a pessoa que tivesse prioridades e interesses semelhantes aos meus, que desse importância às mesmas coisas que eu, com quem eu pudesse conversar sobre tudo, de quem eu não guardasse nenhum segredo, cuja companhia eu achasse mais divertida que a de qualquer "mano", e que me entendesse. Já para as garotas, parece ser impossível conciliar romance e sexo com esse tipo de cumplicidade: para elas, as duas áreas são incomunicáveis. Não se misturam, são água e óleo. Um cara é para namorar e transar, outro é para conversar, fazer coisas juntos, trocar desabafos, dar apoio. Os dois são necessários, mas não podem ser a mesma pessoa: um que sirva no primeiro campo fica inelegível para o segundo, e vice-versa. Assim funciona a cabeça feminina - detalhes ou motivos, eu não sei. Acho que elas também não.

Num de seus mais belos poemas, o grande Olavo Bilac diz que "ouve estrelas", e finaliza assim: "Direis agora: 'Tresloucado amigo! / Que conversas com elas? Que sentido / Tem o que dizem, quando estão contigo?' / E eu vos direi: 'Amai para entendê-las! / Pois só quem ama pode ter ouvido / Capaz de ouvir e de entender estrelas.'" Não sei até que ponto amar pode ajudar a entender seja o que for, e uma das vantagens de ser poeta é estar dispensado de ser fiel aos fatos (é a famigerada "licença poética"), mas, num primeiro momento, pareceu-me que escrever a respeito - já que escrever sempre me ajuda a organizar os pensamentos - poderia me fazer chegar um pouco mais perto de entender esses seres maravilhosos e enfurecedores chamados mulheres. Ledo engano: entendê-las não é possível, e, se o fosse, não serviria para nada. Compreendidas ou não, elas continuariam prometendo e não cumprindo, desejando coisas e temendo-as ao mesmo tempo, buscando seus sonhos com persistência e coragem que nós homens nunca conseguiríamos igualar e, ao se verem cara a cara com a possibilidade da realização do sonho, virando as costas e fugindo. De qualquer forma, as estrelas, apesar de "femininas", são interlocutoras bem mais acessíveis!

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Gratidão II

Nunca me atraiu a tendência "olha eu aqui" que parece nortear a atitude da maioria das pessoas no que se refere à internet - prova disso é que ainda hoje, em pleno ano de 2010, continuo a manter uma distância segura de Twitters, MySpaces e seus parentes (o orkut eu até tangenciei, mas deve fazer uns dois anos que não vou lá). Irrita-me a ansiedade inexplicável da vasta maioria dos usuários dessas redes em compartilhar não ideias, conhecimento ou qualquer outra coisa de relevante, e sim com quem "ficaram" na festa tal ou o fato de terem mudado o corte do pelo do cachorrinho. São coisas que eu simplesmente não quero saber, e reservo-me o direito de não querer.

Quando criei este blog, no fim de 2007, depois de três anos tocando o
Notas de Literatura, foi com a ideia de postar textos inspirados por meus próprios pensamentos, sem necessariamente estarem vinculados a livros ou filmes. Sempre que possível, faria isso sem entrar em detalhes sobre o evento da minha vida pessoal que porventura houvesse inspirado o pensamento, justamente para não me igualar aos "seres" que acabo de "escovar" no parágrafo anterior. Só que há momentos na vida em que as circunstâncias, sem pedir licença, simplesmente mandam para o espaço até mesmo as nossas mais enérgicas resoluções, obrigando-nos a fazer precisamente o que havíamos decidido não fazer. Então, vamos nós.

É irônico que, tão pouco tempo depois de escrever um texto sobre gratidão - aquele, não inspirado por nada em especial -, eu seja trazido de volta ao assunto, desta vez por motivos bem concretos. Para limitar ao mínimo possível as referências à minha vida pessoal, e também para não me alongar rememorando coisas desagradáveis, direi apenas que, na tarde de 05 de janeiro, de maneira mais ou menos repentina, comecei a sentir fortes dores abdominais, eventualmente identificadas como sintoma de uma apendicite, doença que uma pessoa de sorte pode morrer velha sem ter, mas que não escolhe idade: tive-a aos 35 anos, como poderia ter sido aos sete, aos 18 ou aos 60. Fui hospitalizado, submetido à cirurgia adequada, e então passei por uma convalescença que, mesmo rápida, deu-me, pela primeira vez na vida, a compreensão do que é estar com uma doença realmente incapacitante - e do que é gradualmente se recuperar dela, retomando aos poucos o contato com coisas que, no dia-a-dia, temos o mau costume de ver como "normais". Voltarei a falar nisso e em algumas das suas implicações.

De forma bem previsível, minha maior dívida de gratidão em todo esse episódio é para com minha mãe, que permaneceu ao meu lado praticamente o tempo todo, zelando de todas as formas para que eu ficasse bem, ou tão bem quanto possível naquelas circunstâncias, lembrando-se de uma longa série de detalhes práticos nos quais eu dificilmente teria pensado, e, mais importante ainda, permitindo-me o conforto de sua companhia, o que foi especialmente precioso nos terríveis dias imediatamente após a cirurgia, quando a medicação pesada me mantinha num permanente mal-estar físico, com as inevitáveis consequências sobre o meu estado de espírito. Como, ao contrário da maioria das pessoas, não tenho nenhuma dificuldade para externar sentimentos, nem acho constrangedor fazê-lo (não invoco nenhum mérito pessoal nisso: simplesmente me considero com sorte por ser assim), já agradeci de viva voz, pessoalmente, e com a ênfase devida, mas, como não parece certo contar a história sem mencionar novamente a minha gratidão, aqui está: muito obrigado, mãe.

Agradeço, também, ao médico e à equipe do hospital que cuidaram de mim. Graças e eles, estou aqui, novamente de pé e pronto para outra (não outra apendicite, que, pelo que sei, e graças a Deus, não se tem duas vezes! Espero jamais passar por nada de semelhante de novo). Apesar do aquecimento global, das profecias maias e do
Big Brother, também me sinto grato por viver no século XXI, quando a tecnologia médica disponível permitiu que tudo fosse feito sem nenhuma grande incisão, o que se traduz num restabelecimento rápido e praticamente nenhuma cicatriz. Bem diferente do que era uma operação desse tipo meros 20 ou 30 anos atrás, já pensaram?

Um agradecimento também a
o Samir
, que, de mero conhecido cordial que era até agora, passa a integrar a restritíssima lista das pessoas que considero meus amigos - e quem me conhece sabe que nunca uso essa palavra no seu sentido orkútico: para mim, amigo é amigo. E não dá para considerar menos que isso uma pessoa que faz por outra o que esse cara fez por mim. Valeu, Samir!

Agradeço, ainda, aos meus colegas de trabalho, que, mesmo com a equipe já reduzida nessa época de férias, desdobraram-se heroicamente para cobrir mais essa baixa inesperada, além de me darem bem-humoradas injeções de ânimo por telefone em diversos momentos. Obrigado, pessoal.

Quero terminar falando de outro tipo de gratidão, a que experimentei ao ter de volta uma série de pequenas coisas que (percebo agora) de pequenas não têm nada. Eu experimentei dor numa escala, para mim, inédita, e, o que é mais, dor constante, persistente, que durante alguns dias me impediu de coisas como relaxar e dormir. Uma vez livre disso, e impossível não se perguntar como é que geralmente não nos damos conta da delícia indescritível que é poder deitar, respirar fundo e relaxar, sem sentir nenhuma dor ou incômodo, nenhum enjôo causado por remédios, nada. Como não percebemos a bênção que é uma boa e tranquila noite de sono, na posição que mais nos agrade, sem a preocupação de não deitar sobre o lado direito? Nunca vou esquecer o primeiro copo d'água que me deram, depois de quase dois dias sem poder ingerir coisa alguma. Cada copo d'água que eu beber de agora em diante vai me lembrar disso, e será mais apreciado que qualquer vinho raro. E o que dizer da minha maravilhosa cama, depois de ter experimentado cama de hospital - uma estrutura em cima da qual a gente tem a sensação de estar sempre se equilibrando, pois não parece algo projetado para que uma pessoa se deite com um mínimo de conforto? Podem apostar que de agora em diante prezarei muito mais todas essas coisas e outras semelhantes, e me lembrarei com mais frequência de reclamar menos e agradecer mais.

Por fim, embora a impressão que tenho seja de que esse período de tratamento demorou meses, vejo que tudo se deu em meras duas semanas, o que significa que o ano está só começando. E, de repente, ele me parece cheio de possibilidades.

Obrigado!

sábado, dezembro 19, 2009

Gratidão


É interessante como os sentimentos mais legais que nós, seres humanos, experimentamos em nossas efêmeras existências são (coincidência ou não) justamente aqueles que é mais importante e relevante dar do que receber. E talvez a nenhum outro sentimento isso se aplique melhor do que ao da gratidão. Não que não seja maravilhoso receber uma manifestação sincera de gratidão de outra pessoa, mas esse é realmente um sentimento que faz um bem muito maior a quem o experimenta do que a quem é dirigido, o que me leva a suspeitar que a gratidão talvez seja a contraparte positiva do ódio - este, como dizia um verso de uma música que ouvi certa vez, é "o veneno que um toma, querendo que o outro morra". A música não era grande coisa e não lembro ou nunca soube quem a cantava, mas só por trazer esse verso ela já merece ser poupada do limbo do esquecimento que é o destino fatal de 99 por cento de todos os pop-rocks de FM.

Um bom começo para tentar explicar o que quero dizer é aquela gratidão que não se destina a pessoas, e sim a Deus, ou a qualquer poder superior no qual a pessoa acredite - e talvez quem não acredita em nada disso sinta-se grato ao acaso, mesmo que essa ideia pareça um tanto sem sentido. Não vou dizer que estou cem por cento satisfeito com a vida que levo - estaria bem mais contente se pudesse ganhar a vida escrevendo ou ensinando, ao invés de me dedicar a serviços burocráticos, por mais que esteja ciente da importância do que faço -, mas fico grato, sim, quando, no meu trajeto a pé para o trabalho pela manhã, passo por alguns sujeitos de camiseta azul que também se dirigem ao trabalho, sendo que o deles, numa grande indústria aqui da cidade, é braçal e paga um quarto do que eu ganho. Talvez esses caras não tenham tido a chance de estudar, ou talvez tenham tido a chance e tenham tido preguiça, tanto faz; minha gratidão é por ter tido a chance e também a vontade, pois as duas coisas foram necessárias para que eu chegasse a ter o que tenho hoje. Não me sinto realizado, mas não tenho nenhuma preocupação material. Pode parecer excessivamente pragmático vindo de alguém que se considera um idealista, mas botar a cabeça no travesseiro à noite e poder dormir sem ficar pensando se vai ou não conseguir fechar as contas no fim do mês também tem seu valor. É algo pelo qual não é descabido ser grato. Além disso, o dinheiro que ganho vai um dia pagar o meu curso de mestrado, que poderá ser uma chance de mudar de vida - uma chance que os tais caras de camiseta azul talvez nunca tenham.

Refletir sobre tudo isso e sentir que tenho pelo que agradecer faz bem. Não a Deus: não creio que faça diferença para Ele. Mas faz bem
a mim.

Fico pensando, também, na ideia mais ou menos generalizada de que um gesto que haja demandado sacrifício de quem o fez é mais merecedor de gratidão do que um que tenha sido espontâneo, natural. Talvez seja mais merecedor, mas deve haver um motivo qualquer na complexa natureza humana para que as coisas pelas quais mais facilmente nos sentimos gratos sejam aquelas feitas quase sem perceber pela outra pessoa. Um gesto de amizade sincera (aliás, "amizade sincera" é redundância: se não for sincera, não é amizade) é sempre espontâneo, gratuito, feito por prazer, e, no entanto, que gratidão desperta! Um momento agradável que se partilha fazendo seja o que for, uma boa conversa, um desabafo feito ou ouvido, algumas lágrimas nossas no ombro de um amigo, ou as dele no nosso - tanto faz. Quando a amizade é verdadeira, tudo isso tem o mesmo valor. Eu fico grato a um amigo que está sempre disponível para me ouvir quando preciso, mas fico igualmente grato quando ele, ao precisar que alguém o ouça, procura por mim.

Por fim, acredito que a gratidão é algo que deve ser oferecido e aceito alegremente, mas não é algo que se deva procurar - não se deve fazer coisa alguma esperando gratidão. E isso não apenas por causa do nobre princípio cristão da bondade desinteressada, que não espera recompensas: há um motivo bem mais prático, que é o simples fato de que, na maioria das vezes, quem espera por gratidão se decepciona. A gratidão vem quase sempre quando e de onde não se espera.

terça-feira, julho 14, 2009

Comunicação

"Que arriscado e conturbante é a gente se tirar das solidões fortificadas!" (Guimarães Rosa)

Homens como Samuel Morse, inventor do telégrafo, Alexander Graham Bell, que desenvolveu o telefone, e tantos outros que devotaram seu gênio e seu suor a facilitar a comunicação entre os seres humanos, ficariam atônitos se voltassem ao mundo nos dias de hoje e pudessem ver como as coisas são agora. Hoje, quase todo mundo anda com um aparelhinho de bolso por meio do qual pode ser encontrado a qualquer momento e quase em qualquer lugar. Textos, imagens, músicas e vídeos podem ser enviados de um lado a outro do globo de forma instantânea e sem custo algum. Não há mais o menor perigo de duas pessoas perderem o contato, estejam onde estiverem. Sentado aqui, à minha mesa de trabalho, numa cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul, posso contatar meus amigos de São Paulo, da Itália ou do Japão, sem ao menos precisar tirar a bunda do assento. Sim, são coisas espantosas e maravilhosas, se pararmos para pensar por um instante.

O que é tristemente irônico é que toda essa facilidade de nos comunicarmos não parece estar contribuindo para aproximar as pessoas. A não ser em casos raros e específicos, parece ocorrer o contrário: esses novos aparatos nos soterram sob avalanches de informação sem sentido que acaba gerando apatia, e nos colocam em contato superficial com multidões de pessoas - impedindo um contato profundo com qualquer uma delas. A caixa de entrada de meu e-mail do trabalho é bombardeada diariamente com 20 a 30 mensagens, a maioria trazendo anexos enormes, contendo instruções, relatórios, normativos, notícias, estatísticas e sabe Deus o que mais, enviadas por diferentes setores da instituição para todos os nomes de uma imensa lista da qual, infelizmente, eu faço parte. Nunca vou ler isso tudo, a menos que deixe de trabalhar para cuidar só do e-mail, mas alguém pensa nisso antes de me mandar arquivos em PDF com 30, 40 páginas? O MSN virou uma ferramenta indispensável para gerenciarmos nossos contatos, sejam eles pessoais ou profissionais, mas também nos reduziu, aos olhos uns dos outros, a simples rostos e nomes. Adolescentes, e também outros que já não o são há um bom tempo, gabam-se (como se isso tivesse algum mérito) de ter 150 “amigos” no MSN ou no orkut. A vontade que me dá é perguntar: amigos? Amigos? Quantas dessas 150 pessoas realmente sabem quem você é, ou quantas delas você realmente sabe quem são? Quantas conhecem ao menos detalhes básicos a seu respeito, como em que cidade nasceu, que tipo de música prefere ou como é sua relação com sua família? Com qual dessas pessoas você pode contar quando está triste e precisa conversar? Eu tenho seis pessoas no MSN e já acho isso quase demais. Só considero uma dessas pessoas realmente uma amiga (porque, como no caso de tantas outras palavras, também esta é usada por aí com excessiva liberalidade para o meu gosto). Tirando isso, a maioria das pessoas com quem cheguei a falar por MSN apenas contribuiu para aumentar minha sensação de solidão - pois é essa a sensação que bate quando você está tentando conversar com alguém que demora 20 minutos para lhe responder porque também está falando com outras dez pessoas, além de responder e-mails, baixar músicas, assistir a vídeos, ler as notícias do dia e movimentar sua conta bancária. Tudo ao mesmo tempo.

Saí com uma jovem que não parava de atender ao celular enquanto estava comigo. Depois da terceira vez que me vi obrigado a ficar sentado com uma polida cara de quem não está ali, enquanto ela se alongava em conversas com sei-lá-quem, decidi que já tinha tido o suficiente: não voltei a sair com ela, e não senti falta. Ficar com uma pessoa dessa maneira é só uma outra forma de solidão. E parece que essa é uma tendência generalizada: você tem dezenas de amigos, mas quando foi a última vez que se sentou com um desses amigos por algumas horas, com os celulares desligados, para conversar, ou fazer algo juntos, ou não fazer nada, simplesmente ficar na presença de alguém que é seu amigo e sentir que isso lhe faz bem? O mundo moderno multiplicou exponencialmente a quantidade de nossas relações, mas fez a qualidade delas cair de forma abissal. Não temos mais tempo uns para os outros - parece que basta saber que a pessoa "está lá". E no entanto, que grave erro é acreditar que isso basta... Um erro que, geralmente, só percebemos quando já é demasiado tarde para repará-lo.

Por mais mirabolantes que sejam os instrumentos de comunicação ao nosso dispor, eles não são capazes de cobrir o abismo que cavamos à nossa própria volta quando estamos muito acomodados para dar-nos ao trabalho (e, o que é mais, correr o risco) de dar um passo em direção ao outro, olhá-lo nos olhos sem disfarces, dizer em alto e bom som o quanto ele é importante para nós e o quanto nos faz felizes tê-lo em nossas vidas. Não há celular a seis centavos o minuto que substitua uma boa e franca conversa, não há MSN que preencha o vazio de não ter o prazer da companhia de um amigo, não há webcam que valha por um forte e demorado abraço. Por isso, e por mais que seja verdade que "conselho é aquilo que o sábio não precisa e o tolo não aceita", eu lhe digo, a você que me lê neste momento: deixe a vergonha e os preconceitos de lado e diga hoje aos seus amigos, pais, filhos, esposa, marido, namorada, namorado e a qualquer outra pessoa de quem você goste o quando eles são importantes para você. Pare de achar desculpas para não lhes dar atenção ou passar mais tempo com eles, esqueça a internet, desligue o celular. Você chegou a este mundo sozinho e vai sair dele do mesmo jeito, portanto não desperdice a chance de ter esses preciosos companheiros de jornada ao seu lado (realmente ao seu lado, ainda que a distância) enquanto pode.

quinta-feira, abril 23, 2009

Marte e Vênus: um só planeta

- Aline! Que bom que veio!
- Ora, e eu ia perder a oportunidade de matar saudades? Como você está, moço?
- Vou muito bem! Vamos sentar ali?
- Claro.
- Sabe, é legal estar aqui conversando com você! Muitos caras acham difícil entender que eu goste tanto da companhia de uma menina, mas tenho culpa se eu não consigo achar que a vida se resuma a beber cerveja e falar de futebol ou da anatomia de celebridades?
- (risos) Como se conversas masculinas também devessem obrigatoriamente incluir gostosonas e futebol.
- Uma vez falei isso para um conhecido e ele perguntou se eu preferia conversar sobre novela e salões de beleza... Como se ele achasse que é obrigatório uma mulher só pensar nessas coisas, entende?
- Sério, eu não sei como a maioria dos homens não se ofende... não obrigada, traz só um guaraná? ...Obrigada!
- Pra mim uma Pepsi Twist, por favor.
- Então ....não sei como os homens não se ofendem com esse estereótipo do próprio machismo que sustentam. Porque o machismo não só transforma mulheres em objetos, mas também faz parecer que homens não têm uma cabeça de cima. Acho que é por isso que muitos homens não conseguem ter amizade com meninas, estão sempre achando que elas não passam dos atributos físicos que têm, ou da capacidade de dissertar sobre o último episódio da novela da Globo... Legal esse barzinho, nunca tinha vindo aqui.
- Sim, também gostei... Bem, Aline, eu acho que isso tudo começa porque as pessoas simplesmente aceitam o rótulo que a sociedade gruda nelas assim que nascem - não pensam na possibilidade de ser diferentes.
- Hm. Exemplo?
- Parece que a "macheza" está condicionada a ser uma criatura óbvia, primária, sem nenhuma idéia nova ou interessante, que pensa que amizade só é possível com outros homens, porque mulher é só pra "transar", e acha que qualquer conversa sobre pensamentos ou sentimentos é "frescura". E o pior é que parece ter sido assim por tanto tempo, que até as mulheres acabaram assimilando essa noção: por mais que passem maus pedaços ao lado de caras assim, acham que não tem jeito, porque "homem é assim mesmo".
- Nem me fale. E quando a mulher que vai além de um corpinho bonito e que consegue estabelecer conversas legais e interessantes, acaba se integrando ao grupo de amigos de um cara? É claro que já depende do cara. Mas por ser uma menina em um grupo de amigos exclusivamente masculino, eu já fui considerada por eles como "homem". E vou te dizer uma coisa, Marcos... não existe coisa mais repugnante do que ser considerado um elogio e uma atitude de respeito destituir a pessoa do que ela realmente é para ser considerada uma "igual".
- Puxa!... E te dou inteira razão de ficar chateada com isso! Isso nada mais é do que um preconceito velado, ou até inconsciente, mas, mesmo assim, um preconceito! E não só quando um homem diz a uma mulher que ela é "como se fosse homem". É a mesma coisa dizer a um negro que ele tem "alma branca", ou a um velho que ele tem "espírito jovem" - e achar que está fazendo um elogio!... Ao contrário, eu acho esse tipo de declaração ofensivo à classe de pessoas a quem se dirige, pois o que fica implícito nelas é que o homem é melhor que a mulher, que o branco é melhor que o negro, e que o jovem é melhor que o velho!
- Isso mesmo! Por isso fiquei tão ofendida. Foi como ele ter dito: "não te considero uma igual, porque não quero me comparar a uma mulher. Para sermos iguais, você precisa ser homem".
- Sei exatamente do que você está falando, e acredite, como em tudo na vida, essa moeda tem dois lados... Também é horrível para um homem perceber que, para a maioria das mulheres, um cara que consiga conversar com elas, que as entenda e respeite pelo que são, justamente por causa disso deixa de ser encarado como homem!
- Sério que isso acontece?
- Pior que sim. Tipo, as moças se queixam da falta de sensibilidade masculina, dizem que o companheiro ideal seria um cara sensível, inteligente, gentil, romântico - mas quando topam com um, relegam-no à condição de amiguinho e continuam a se apaixonar por ogros, porque, de tanto serem expostas à noção que a sociedade faz do que seja ser "homem", não conseguem enxergar um cara como um ente masculino, a menos que ele aja como um ogro!
- Onde tá escrito mesmo que homens e mulheres não podem ser amigos juntos sem deixar de ser o que são? Não se pode deixar de considerar homem um cara que é mais sensível que a média troll da população. Da mesma forma, não se pode deixar de considerar mulher uma garota que goste de quadrinhos e RPG. Porque sensibilidade não é uma característica exclusiva feminina, é uma característica humana! Da mesma forma, coisas como hq's e videogame é coisa da cultura humana, e não masculina. Aliás, ali do outro lado da rua tem um fliperama. Vamos lá? Compro umas fichas.
- Podemos ir sim, mas já vou avisando que devo estar enferrujado, faz anos que não entro num!
- Não tem problema, eu pego leve. Ei, moço! Deu dois reais aqui o meu, né?
- Não se incomode, eu pago... Está vendo? Isso é outro aspecto do que a gente falava há pouco. Pequenos gestos de cavalheirismo não machucam ninguém, independente do sexo. Conheço muita gente - tanto homens quanto mulheres - que acham esses gestos um assunto complicado, o que na minha opinião, é pura insegurança de ambos os lados! Enquanto o cara fica pensando: "Será que fica 'esquisito' se eu abrir a porta do carro para ela?", a mulher, se for do tipo paranóico, pode, por sua vez, pensar: "O que esse cara tá pensando, que eu não sou capaz de abrir a porta sozinha?"
- Olha... Preciso mesmo te apresentar para alguns dos meus amigos trolls!
( Em parceria com Aline Valek! )

domingo, fevereiro 08, 2009

Benjamin Button

"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.


Você vai para o colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?"

Charles Chaplin
* * *

Esse pensamento de Chaplin não inspirou o filme O Curioso Caso de Benjamin Button, que é baseado num conto de F. Scott Fitgzerald de 1921... Mas bem que poderia tê-lo inspirado. Em mim, a lembrança foi automática, e passei um pouco de trabalho com o site de busca para encontrá-lo de novo, justamente porque queria pô-lo aqui. No mais, este não vai ser um comentário filmográfico como alguns que já fiz no meu outro blog, o Notas de Literatura; é muito mais difícil dizer algo interessante sobre um filme como este do que sobre os que comentei lá, então será uma coisa meio surrealista: os sentimentos que ele me despertou irão direto para o teclado, sem passar pelo crivo da razão.

Benjamin (o nome é o do mais jovem dos doze filhos do patriarca bíblico Jacó, e, nos países de língua espanhola, significa "caçula"; coincidência?) é um garoto que nasce com uma característica estranha: recém-nascido, apresenta todos os sintomas de degenerescência física normalmente encontrados em pessoas muito idosas, e, à medida em que o tempo passa, vai rejuvenescendo. Cresce num asilo, e aprende desde cedo a conviver com o fato de que as pessoas morrem. "We're meant to lose the people we love. How else would we know how important they are to us?" Essa é uma das frases mais interessantes do filme. Não é uma lição fácil para ninguém aprender, e ainda menos para um homem que vê todos os seus amigos envelhecerem e morrerem enquanto ele próprio fica cada vez mais jovem. Benjamin faz amizade com Daisy, neta de uma das moradoras do asilo, os dois se entendem, suas mentes infantis fazendo contato por cima da aparência precocemente envelhecida dele - uma amizade que não é vista com muito bons olhos por outras pessoas, em especial pela avó de Daisy. Já adolescente (o que, no seu caso, significa que chegou ao início da velhice, ainda - ou já - com algum vigor físico), Benjamin vai trabalhar no mar. Corre o mundo como marinheiro, passa por experiências juvenis como a primeira paixão - que não é exatamente a primeira, já que Daisy nunca saiu de sua cabeça -, só que com a mente juvenil pilotando um corpo maduro. O barco onde trabalha é recrutado como unidade de apoio para a marinha dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial, e Benjamin vê de perto outro tipo de morte, observando que, ao contrário do que acontecia no asilo onde cresceu, "ali a morte não parece uma coisa normal"... Quando finalmente volta para casa, reencontra Daisy, já adulta e seguindo a carreira de bailarina. Muitas coisas acontecem, mas os dois acabam se acertando e ficando juntos, durante os breves anos em que suas "cronologias" coincidem: Daisy amadureceu até certa idade, e Benjamin rejuvenesceu até a mesma. Quando se torna um jovem de seus vinte e poucos anos, ao passo que Daisy se aproxima da meia-idade, Benjamin decide partir, apesar de amá-la, porque, segundo diz, a filha que tiveram "precisa de um pai, e não de um amiguinho". Daí em diante, o componente fantástico da história atinge seu máximo grau de "fantasia", com conseqüências tão comoventes quanto inevitáveis. Para saber mais, vejam o filme - vale muito a pena.

Como em quase tudo na vida, no que toca a cinema eu também tenho momentos diferentes. Algumas pessoas gostam apenas de um ou de poucos tipos de filmes; eu não. Assim como existem músicas que são para relaxar e outras para injetar adrenalina, assim como alguns livros são para estimular a reflexão e outros meramente para empolgar com narrativas emocionantes (e, por que não?, alguns conseguem fazer as duas coisas), também há filmes que envolvem e comovem, e outros que só mesmo divertem. Nada errado com isso. E preciso confessar que fazia tempo que um filme não me comovia tanto quanto esse.

Não é a primeira vez que me pergunto como seriam os fatos comuns da vida, vistos pelos olhos de uma criatura incomum - quero dizer, ainda mais incomum do que eu e uma ou duas pessoas que conheço. Imagine-se como uma pessoa em cuja ampulheta a areia escorre para cima, cujo relógio gira da direita para a esquerda, e que por isso, querendo ou não, acaba por ter da vida um ponto de vista que as outras pessoas nunca poderão ter. Vendo coisas que estão ocultas dos outros (e, por vezes, querendo que estivessem ocultas também de você, mas essa decisão não é sua). Aprendendo o exato valor de momentos e palavras que de outra forma iriam embora com o vento, sem que lhes fosse dedicado um só pensamento. Ciente de que vai ter um fim, como todos os outros, mas, ao contrário desses outros, sem o conforto de ter entes queridos caminhando ao seu lado ao encontro desse fim, para tornar a perspectiva menos assustadora.

Cada pessoa que for assistir a O Curioso Caso de Benjamin Button sairá do cinema com pensamentos diferentes. Em mim, o pensamento foi o de que um filme assim nos oferece a valiosa oportunidade de pensar sobre o valor de certas coisas e pessoas em nossas vidas, sem antes precisar perdê-las. Momentos bons devem ser vividos com os olhos bem abertos e os sentidos bem alertas, em vez de apenas passarmos por eles como por um fato consumado. E as pessoas que amamos devem ouvir da nossa boca que as amamos, enquanto temos a chance de dizê-lo. Oportunidades perdidas raramente voltam, mesmo para quem vive de marcha-a-ré, como Benjamin Button.