quarta-feira, julho 02, 2008

Humildade

Volta e meia a nos deparamos com pessoas que, ao se verem em situações que evidenciem nelas a falta de alguma capacidade intelectual que, via de regra, é considerada elementar, justificam-se, num tom levemente triste de quem se desculpa, dizendo algo do tipo "A gente somos muito humilde..." Humilde quer dizer pobre? E mesmo que seja isso, por que pobre tem que ser sinônimo de ignorante? Questão interessante...

Lembro do trecho de O Tempo e o Vento - O Continente, em que o índio Pedro Missioneiro apresenta à família Terra uma carta do coronel Pinto Bandeira para provar que, apesar de seu sotaque espanholado, já serviu como soldado nas tropas da coroa portuguesa. O velho Maneco Terra declara que ninguém de sua família sabe ler, e o autor frisa que, ao dizer isso, seu tom não sugere lamentação ou desculpa, mas é, antes, levemente desafiador (estou citando de memória, perdoem se as palavras não estiverem exatas). Isso não significa necessariamente que ele se orgulhe de não saber ler - apenas que não sente nenhuma vergonha de não ter tido a chance de aprender. Reflitam.

Claro que seria preciso ser bem mais que humilde - no mínimo, um completo idiota - para não estar ciente do fato de que muita gente não tem culpa de só saber, com muita dificuldade, assinar o próprio nome - ou nem isso. Se alguém cresceu num lugar onde a escola mais próxima ficava a quatro horas de viagem, e além disso teve que pegar numa enxada para pôr comida na mesa da família tão logo se tornou capaz de ficar em pé, seria tolo e injusto não entender que tal pessoa simplesmente não teve escolha. Por outro lado, o que devemos pensar ao ver que existem outros que apenas sentam em cima da tal "humildade" para justificar a falta de interesse em aprender um pouco mais?

É complicado fazer algum julgamento - cada caso é um caso. Algumas pessoas não são culpadas de terem um espírito anão. Umas podem usar a origem humilde como muleta para a preguiça e o desinteresse: "Sou pobre mesmo, ninguém vai ligar se eu não souber escrever direito e não tiver conhecimentos gerais, então pra que perder tempo estudando?" Outras (e isso é bem mais triste) podem ter-se deixado anular, incorporando a imagem que a sociedade preconceituosa tem delas: "Sou pobre, não adianta ficar sonhando muito, tenho que levar a vida que Deus me deu..." Por que não há ninguém para dizer a essas pessoas que, mesmo que seu padrão de vida não venha a melhorar muito do ponto de vista meramente econômico, elas podem, se quiserem, ter uma vida muito mais cheia e significativa, se apenas decidirem abrir os olhos para o mundo que as cerca, e ver o quanto de maravilhas existem nele, só esperando para serem descobertas?

E o que dizer então de pessoas nada humildes (em nenhum dos sentidos da palavra...), que tiveram e têm todas as condições, e são burras, tapadas, arrogantes e prepotentes? Quantas pessoas nós conhecemos, que passaram por uma faculdade e conseguiram a proeza de sair dela tal como entraram - perfeitos quadrúpedes pastadores?

Joaquim Maria Machado de Assis era filho de uma lavadeira e de um pintor de paredes (este, filho de escravos) e conseguiu, pelo próprio esforço, ingressar no funcionalismo público, o que lhe proporcionou um nível de vida, se não faustoso, confortável, além de tempo livre para praticar seu hobby: escrever. Nessa brincadeira, tornou-se o maior escritor da língua portuguesa e um dos maiores da literatura universal. Agora imaginem se ele tivesse simplesmente preferido se esconder atrás de sua origem "humilde" e se contentado com uma vida de poucas letras e ainda menos horizontes...

Alguém disse que cultura é uma forma de status, e outro alguém, que a opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos. Para mim, as duas frases se complementam. Pouco me importa (na verdade, não me importa um átomo) se ninguém mais no mundo entender qual a vantagem (e por que, em nome de Deus, tudo tem que trazer alguma vantagem??) de saber citar Virgílio ou de saber o que Alexandre Nevski fez na vida. Conhecer isso e outras coisas semelhantes traz satisfação para mim, faz com que eu sinta que estou tendo uma vida melhor do que teria se me contentasse em ser "humilde". E, para mim, se eu sinto dessa forma, é o que importa.

quarta-feira, abril 30, 2008

Maidens of War (tradução livre)


Pai, conta-me o que Te perturba
Como Tuas preocupações inquietam Teu filho
Eu vi os olhos dele, ouvi suas palavras
Eu percebi a angústia solene do herói.

Confia em mim, eu sou leal a Ti
Mas eu não posso matar
Teu filho, Teu sangue.

Matando, lutando pela vitória
Matando, enfrentando o inimigo
Matando, lutando, em agonia
Matando, morrendo, pela glória

Donzelas da guerra
Filhas dos deuses
Adeus - Adeus!
Donzelas da guerra

Assassino, Tu mataste Tua própria carne
Por que negas o amor com dor e morte?
Tua lança destruiu a gloriosa espada
Partida para sempre em aço sem nome.

Matando, lutando pela vitória
Matando, enfrentando o inimigo
Matando, lutando, em agonia
Matando, morrendo, pela glória

Donzelas da guerra
Filhas dos deuses
Adeus - Adeus!
Donzelas da guerra

Por quê, por quê, por que cometer tão cruel assassínio?
Por quê, por que, por quê? Estou aprisionada pelo fogo sagrado.

Donzelas da guerra
Filhas dos deuses
Adeus - Adeus!
Donzelas da guerra

terça-feira, abril 22, 2008

A Ignorância ao Alcance de Todos

Escreveu Oscar Wilde que "todo crime é vulgar, e toda vulgaridade é criminosa". É verdade que a frase está no livro O Retrato de Dorian Gray, e, se não me falha a memória, é dita por um certo lorde Henry, que vem a ser um dos personagens mais insuportáveis da literatura universal, pois parece devotar todo o seu tempo (o que não é inverossímil, considerando o completo ócio em que viviam os ingleses da classe alta naqueles dias) a elaborar frases cínicas com que entreter e escandalizar os amigos. E eu, por temperamento, tenho sempre vontade de esganar pessoas cínicas... Mas, no meio de tanta bobagem pseudo-espirituosa, o tal lorde diz, em todo o livro, umas duas ou três frases muito boas, e essa é uma delas.

Fale a verdade: você também conhece (todo mundo conhece) pessoas que, mal pegam o jornal, vão direto à página policial para ver quem matou quem e se deleitar comentando as circunstâncias escabrosas dos crimes. Claro, pode haver quem tenha um interesse científico pelos aspectos psicológicos da coisa, mas não creio que a porcentagem de pessoas com vocação para psiquiatra forense na população em geral seja suficientemente grande para explicar essa multidão de ávidos leitores de página policial - que, não raro, pouca coisa mais lêem. Parece bem mais provável que isso seja uma pista sobre a natureza da vulgaridade, sobre a qual Wilde teorizou.

Outro autor, cujo nome não lembro agora, dizia que "as grandes inteligências comentam idéias, as inteligências medianas comentam acontecimentos, os ignorantes comentam a vida alheia". É um fato da vida que a cabeça do ser humano precisa se ocupar de alguma coisa. Quem não tem acesso (seja por percalços da vida ou por própria culpa) às artes e às ciências, e portanto não conhece o tesouro de beleza e conhecimento que a humanidade acumulou ao longo de sua história - e que hoje está aí para usufruirmos, sem esquecer nosso dever de o aumentarmos para as gerações futuras - só pode mesmo deter-se em detalhes mesquinhos, no nível que sua compreensão alcança, e é para esse tipo de pessoa que adquire uma importância desesperadora saber se o vizinho do outro lado da rua está ou não enganando a mulher, ou quem matou quem na cidade durante o fim de semana. Perguntem-me se Einstein, Leonardo da Vinci ou Tolstoi saberiam dar alguma informação sobre a vida pessoal de seus vizinhos!... Eles simplesmente tinham coisas muito melhores em que pensar.

Talvez essa civilização tecnicista tenha a sua parcela de culpa, por criar na cabeça das pessoas "normais" uma tamanha desconfiança de qualquer coisa que não tenha finalidade prática. Um conhecido meu declara de boca cheia que não "perde tempo" lendo romances, que poesia é uma estupidez porque o cara "pode escrever qualquer merda que todo mundo vai achar lindo", que "não tem saco" para olhar pintura ou fotografia, e que até música ele só ouve quando está no carro. Ou seja, esse cidadão absorveu com perfeição a ideologia moderna que classifica arte como coisa inútil. Alguém pode se surpreender de que uma anta dessas esteja sempre interessadíssima em saber detalhes sórdidos da vida de vizinhos e conhecidos, ou que adore ler notícias de crimes? Sobra sempre um vácuo na nossa vida onde não conseguimos enchê-la com trabalho ou sono, e esse vácuo, de uma forma ou de outra, vai ser preenchido. Quem não cultiva seu espírito, fatalmente acabará tendo-o transformado em aterro sanitário.

quarta-feira, abril 09, 2008

Vivo

Posso pensar numa infinidade de coisas melhores para se fazer numa bela e amena manhã de quarta-feira quando se está de férias (uau!), mas, como era necessário, lá fui eu para um representante autorizado da Vivo, a fim de providenciar a troca do meu velho aparelho. Por mim, continuaria com ele, que sempre me serviu muito bem ao longo de anos, só que, como o "progresso" não pára, a tecnologia TDMA deixou de funcionar este mês; então, querendo ou não, eu teria que adotar um celular mais "muderno". Algumas semanas atrás recebi uma ligação da Vivo prometendo enviar alguém para fazer a troca na minha casa num prazo de sete dias úteis, mas, como ninguém apareceu, tive que me mexer para não acabar ficando sem o serviço.

Chegando ao local, meu primeiro pensamento foi que devia ter deixado a preguiça de lado e acordado bem mais cedo: naquele momento passava um pouco das oito horas e já havia diante da porta da loja (que só abriria às nove) uma longa fila de pessoas movidas pela minha mesma necessidade. Tomei lugar no fim da fila e coloquei nos ouvidos os fones do meu discman, que tivera a boa idéia de trazer comigo, juntamente com um bom livro. Tinha escolhido um CD de MP3 já pensando nessa situação: mais de 120 músicas de boas bandas de hard rock e heavy metal. Gosto de muitos tipos de música - rock, new age, MPB, música clássica, alguma coisa de blues... - mas, para longas esperas em filas, prefiro ouvir sons pesados, porque é melhor para isolar tudo o que venha de fora dos fones. Change to random mode and press play... (Stratovarius, Forever Free, 6:00) Enquanto o excelente metal melódico da banda finlandesa começava a se derramar dos fones, percorri a fila com os olhos e avaliei que ficaria ali algumas horas, já que cada pessoa, ao ser atendida, precisava escolher um novo aparelho, ter seu bônus verificado, e, conforme o caso, negociar a forma de pagamento, além do procedimento de transferência da linha, o que, tudo junto, deveria demorar cerca de uma hora por cabeça. Ao contrário do senso comum, que seria ter pena de mim mesmo e dos outros clientes, fiquei com pena dos funcionários, pois sei, por uma longa experiência, que só há uma coisa pior que esperar horas numa fila: estar sentado atrás de um balcão, atendendo as pessoas que esperaram horas numa fila.

(Dio, Sacred Heart, 6:20) Depois de aproximadamente uma hora na fila, por fim cheguei perto do terminal onde um funcionário distribuía as senhas, de acordo com o serviço que o cliente necessitasse. Ou seja, era uma hora de espera apenas para tirar a senha e poder realmente começar a espera que contava. Observei distraidamente uma senhora gesticulando enfaticamente e movendo os lábios com energia, enquanto o funcionário assumia aquela expressão de paciência martirizada que bem conheço. Em pensamento, dei os parabéns a mim mesmo por ter trazido o discman: sentia-me contentíssimo de não poder ouvir uma palavra do que estava sendo dito.

O fato é que, ao me ver em situações semelhantes, como costumava acontecer nos bancos há poucos anos (antes de os abençoados terminais de auto-atendimento praticamente eliminarem a necessidade de se entrar nas agências), sempre preferi aproveitar o tempo para algo de construtivo, como ler, por exemplo. Enquanto isso, a quase totalidade das pessoas à minha frente e atrás de mim usavam esse tempo reclamando azedamente umas com as outras e xingando todo mundo que lhes ocorresse xingar, desde o governo até os funcionários nos guichês. Suponho que experimentassem com isso alguma espécie de satisfação deturpada que nunca serei capaz de entender. (Edguy, Catch of the Century, 4:03) Pergunto-me, e desafio qualquer pessoa que me leia a dar uma resposta razoável: ficar se irritando e jogando bílis no próprio sangue tem o poder de fazer uma fila andar mais depressa? Então, para que desperdiçar energia com algo que terá o único efeito de tornar sua própria existência um pouco mais miserável?

A mesma coisa, com as alterações adequadas a cada situação, pode ser aplicada a um grande número de áreas da nossa vida diária, e acho surpreendente que a vasta maioria das pessoas nunca se dêem conta disso. O stress existe, é uma realidade e por vezes não temos como fugir dele - mas por que não nos contentamos com o stress que a vida se encarrega de nos impor, e ainda fazemos questão de nos estressar voluntariamente quando isso é desnecessário e inútil?

quarta-feira, abril 02, 2008

As Quatro Estações

Eu não poderia apostar minha cabeça na exatidão da data, mas acho que foi por volta do final de 1989 que o Legião Urbana, uma das bandas mais importantes da história do rock nacional, lançou o que, em minha modesta opinião, é o melhor disco de sua carreira: As Quatro Estações. Quem conhece a trajetória da banda sabe que seu vocalista e mentor, Renato Russo, tivera seu período punk/revoltado, que gerou, em discos anteriores, algumas músicas que valiam por um soco na boca do estômago de certos setores da sociedade e por um grito de alerta contra uma série de absurdos. Já em As Quatro Estações, Russo dava a impressão de estar mais aquietado e introspectivo, ainda preocupado com o mundo, é claro, mas preferindo focar a maneira como o indivíduo se relaciona com ele.

Disse que creio que As Quatro Estações saiu no final de 1989 porque lembro com toda a clareza possível que esse disco teve um papel fundamental na minha vida durante os dois anos seguintes, quando cursei as duas últimas séries do segundo grau (na época, ainda não se falava em "ensino médio"). Tinha 16 e 17 anos, às voltas com todas as penas, sonhos e desafios da adolescência, e começando a ter a percepção clara de que o fato de me sentir tão diferente de todo mundo não era apenas mais um desses complexos adolescentes que ficam para trás assim que o organismo dá um jeito de compensar os excessos hormonais, mas algo com que eu teria de lidar, da melhor maneira que pudesse, pela vida afora.

Ouvir o Legião Urbana, e principalmente as músicas de As Quatro Estações, me acalmava e trazia um certo alívio, pois fazia com que meu mundo parecesse encontrar o seu eixo, e fazer sentido, mesmo que de forma diferente do mundo onde viviam meus colegas. O vozeirão de bronze de Renato Russo, embalado pelo instrumental simplíssimo mas agradável da banda, falava de coisas que eu entendia, e que seria capaz de jurar ser o único em todo o planeta a entender. Falava das coisas que eram importantes para mim, das coisas em que eu acreditava, das coisas que, ao mesmo tempo em que me afligiam, traziam uma inexplicável satisfação, porque, se eu as sentia, era porque era humano, estava vivo e estava me tornando um homem - não mais um menino.

Foi nessa época que tentei montar uma banda de rock (nem preciso dizer que o Legião comparecia com uma boa porcentagem do nosso repertório à base de covers), também foi quando me apaixonei pela segunda vez na vida e aprendi que o sentimento vem com um sabor diferente quando é por uma pessoa diferente. Hoje me parece inadmissível que mesmo um rapazinho de 16 anos se apaixone por uma garota sobre a qual não sabe coisa alguma, exceto que tem um rostinho encantador, mas adolescência é adolescência... É preciso dar um desconto.

Uma das músicas mais interessantes de As Quatro Estações era Monte Castelo (uma das manias de Russo era batizar algumas músicas com títulos que aparentemente não tinham qualquer ligação com o conteúdo da letra, ou que, mais provavelmente, deviam ter uma ligação que somente ele sabia qual era). Eis aqui a letra:

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua do anjos
Sem amor, eu nada seria...
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece...

O amor é o fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer...

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria...

É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder...

É um estar-se preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor
É um ter com quem nos mata lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor...

Estou acordado todos dormem,
todos dormem, todos dormem
Agora vejo em parte
Mas então veremos face a face
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade...

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua do anjos
Sem amor, eu nada seria...

Como eu lia de tudo, vorazmente, desde a infância, identifiquei sem dificuldade os recortes do soneto mais famoso de Luís de Camões (1524?-1580) e da Primeira Carta aos Coríntios escrita por São Paulo, diferentemente de meus colegas, que, ao verem a professora de Literatura, certa manhã, escrever no quadro aqueles versos, exclamaram, muito surpresos: "Tem uma música assim, 'sora!" Anos mais tarde, na faculdade, outros colegas tinham absoluta certeza de que a parte sobre a língua dos homens e dos anjos era de Camões - por causa da música, sem dúvida. Mas deixa pra lá.

Para efeitos de comparação, aqui vai um trecho da Carta aos Coríntios:

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. O amor é paciente, é benigno, o amor não inveja, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz incovenientemente, não procura seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal, não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais há de acabar. Tempo haverá em que as profecias desaparecerão, as línguas cessarão e a ciência será abolida, e só o amor permanecerá. Porque em parte conhecemos, e em parte profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, o que é imperfeito será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, apreciava como menino. Quando me tornei homem, dei de mão as coisas que eram de menino. Porque agora vemos como num espelho, obscuramente, e então veremos face a face; agora conheço em parte, e então conhecerei como sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor. Porém, dos três, o maior é o amor.

Em muitas Bíblias, encontraremos a palavra caridade no lugar de amor. É porque o texto original era em grego, e a língua grega tinha quatro palavras para designar amor, sendo que, no momento, só me lembro de três. Eros é o amor sentimental e sexual, o amor de amantes; filos é a amizade; ágape (vertido para o latim, cáritas) é o amor de que fala o apóstolo, o amor desinteressado que deseja o bem de todos. Algo, como se vê, infinitamente maior do que a idéia que se tem de "caridade" hoje, que consiste basicamente em dar esmola aos necessitados. Mas creio que, em sua essência, o amor, quando é verdadeiro, tem basicamente as mesmas características, seja qual for o tipo.

Até onde pude ver, a única parte em toda a letra que não é de Camões nem de São Paulo é "Estou acordado todos dormem". Uau! Por que esse pequeno verso, jogado no meio de tanta coisa linda, teria mexido tanto comigo? Tanto quanto o outro sobre "solitário andar por entre a gente", que eu igualmente entendia, ao menos entendia o suficiente para aplicá-lo a mim, aos meus assuntos, aos meus dramas.

Por estranho que pareça, o amor não requer necessariamente um ser que ama e outro que é amado, e não estou falando apenas de amar sem ser correspondido. Ao menos algumas pessoas sabem o que é sentir o amor dentro de si sem ter absolutamente ninguém a quem dirigi-lo, e, no entanto, senti-lo, de forma inconfundível. É como se ele estivesse à espera de algo, mas, de vez em quando, essa espera o deixasse impaciente e ele reclamasse nossa atenção, mesmo não havendo ninguém a quem dedicá-lo. E, como em tantas outras coisas, nisso as pessoas são diferentes. Em algumas, o amor dentro delas é como um pequeno regato que corre de forma constante e não incomoda muito - o que não significa que não possa, no momento oportuno, transformar-se num rio Amazonas, mas normalmente ele não é assim. Em outras, esse amor expectante é um oceano, às vezes plácido, às vezes turbilhonante, mas sempre um oceano, algo tão imenso que não se entende como cabe dentro da gente.

Acho que, na realidade, o amor nasce com a gente, acho que o levamos conosco a vida inteira, como um botão que não desabrocha até o momento em que é tocado pela mão certa. E pode acontecer de levarmos o botão para o túmulo conosco, ainda fechado... Porém, uma vez aberta, essa flor nunca, jamais murcha, ainda que sejamos obrigados a carregá-la na travessia do deserto. Sua beleza nos inspira, seu perfume nos dá energia, e seus espinhos por vezes nos machucam... Mas não há outra maneira de poder dizer que realmente vivemos.

domingo, março 23, 2008

Solidão

A antropologia e a biologia nos informam que o ser humano evoluiu para viver em sociedade, isto é, para estar na companhia de outros membros de sua espécie. Até aí, nada de estranho: inúmeras outras espécies também são gregárias por natureza, vivendo em grupos que variam em grau de organização desde simples bandos liderados pelo animal mais forte, até verdadeiras sociedades, em sentido próximo ao que nós, humanos, damos a essa palavra, como é o caso de abelhas ou formigas. Entretanto, esse é mais um ponto que faz de nós, a única espécie do gênero Homo a sobreviver à última Era Glacial, um caso único, porque, como somos infinitamente mais complexos que qualquer de nossos irmãos do reino animal, também a questão da companhia assume para nós implicações que não tem para nenhuma outra espécie. Muitos seres podem ter necessidade da companhia de seus semelhantes, por razões de sobrevivência; apenas nós temos o desejo de companhia, mesmo quando, do ponto de vista puramente prático, ela não seja necessária.

E o que acontece quando vivemos cercados de tantas pessoas, na escola, no trabalho, na rua, até em casa, e isso, paradoxalmente, não alivia nosso sentimento de solidão? Sempre me pergunto se muita gente sente isso, ou se é outra peculiaridade minha. É uma questão que fica ainda mais evidente hoje em dia, quando a tecnologia pôs ao nosso alcance uma série de instrumentos capazes de permitir a comunicação instantânea entre pessoas até mesmo em lados opostos do globo terrestre - comunicação à qual, se nem todos têm acesso, os que o têm podem utilizar a qualquer momento. Então, por que isso tudo só faz aumentar a sensação de isolamento que tantas vezes eu sinto me afligir?

A explicação é que, ainda que, bem ou mal, todo mundo no Brasil fale português, com a maioria (quase totalidade) das pessoas, eu me sinto como se não falássemos realmente a mesma língua. Tudo o que dizem me parece tão raso, tão sem sentido, tão sem importância, que, embora eu reconheça que procurei por essa companhia, no momento em que a tenho, fico impaciente para deixá-la, porque não a sinto como verdadeira companhia.

Até onde vale a pena ir em busca de uma mente semelhante?

domingo, março 09, 2008

Dreamer


(Joey Tempest/Europe)

He is down by the riverside
Late one night
He's tryin' to count the stars
In each of the signs.
All alone by the riverside
And time passes by
Gathering thoughts of the past
And maybe he'll cry...

So they say he's a madman
And he don't understand
But I know that he's tryin' hard
To act like a man.
All those years he has suffered, my friends
All those years of pain
But I don't think he knows for sure
If those years were in vain.

He's a dreamer
And he's fightin' for his life.
He's tryin' to understand
He's a dreamer
But he wants to carry on
Yet I know he's a lonely man.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

At the End of the Rainbow

As long as I remember
We've marched across this land
Oh, oh...
Reached for a new horizon
Pulled by the killing hand
Oh, oh...

All fed up with lies
The time has come
To break these chains and fly

Here we stand, bound forever more
We're out of this world, until the end
Here we are, mighty, glorious
At the end of the rainbow
With gold in our hands

We know the treasure lies
Beyond the pouring rain
Oh, oh...
Our quest will last forever
For you it's all the same
Oh, oh...

No one can deny
Our future's set
To reach above the sky

Here we stand, bound forever more
We're out of this world, until the end
Here we are, mighty, glorious
At the end of the rainbow
With gold in our hands

Let's fly away through the rain
Fly high, to ease the burning pain
Oh, the colours fading out
The light is shining in the night
It's up to you, it's worth the fight
Search before the colours fade

Here we stand, bound forever more
We're out of this world, until the end
Here we are, mighty, glorious
At the end of the rainbow
With gold in our hands
* * *

Ser humano é uma coisa muito complicada. Sei que não estou dizendo novidade alguma, mas fazer o que se meus pensamentos andam girando numa órbita que tem esse manjadíssimo fato como eixo central? Eu até poderia dizer que ser humano é complicado, a menos que você se contente em ser um sujeito comum, sem maiores aspirações intelectuais ou artísticas, do tipo que trabalha, assiste futebol, come, dorme, e pouco mais - mas acho que nem mesmo sendo um desses dá para escapar da complicação homérica inerente à condição humana. A mim, pode parecer que quem se contenta com isso tem uma vida simples (simples demais para o meu gosto...), mas na realidade é provável que mesmo esses se vejam às voltas com seus próprios problemas, que para eles também podem parecer bem complicados. That's it.

Para não endoidar no meio disso tudo, acredito que a atitude que temos perante nós mesmos é de fundamental importância. Essa atitude, pelo menos para mim, está sintetizada na resposta que a criatura dá a si própria quando se pergunta: "Vem cá, por que é que você está enfrentando tudo isso? Por que se dá a todo esse trabalho?" E, chamem-me de ingênuo se quiserem, não dou a mínima: para mim é preciso acreditar que o bem ainda é possível, que a beleza é real, que podemos ser gentis e honestos uns com os outros, que é preciso, sim, ter princípios e tentar agir de acordo com eles - tentar, eu disse, pois somos todos falhos e limitados. É fácil não acreditar em nada, dizer que vivemos num mundo podre, que ninguém presta, que nada vale a pena, tornar-se cínico e amargo: é fácil, facílimo, é a coisa mais fácil do mundo, porque, se você se convence de que é assim, tem a desculpa perfeita para ficar destilando seu azedume e não mover uma palha para fazer algo de bom por si mesmo, pelos outros ou pelo planeta. E ainda passa por inteligente aos olhos de muitos!... Não que isso faça diferença para alguém, mas, de mim, esses tipos só receberão desprezo.

Conseguindo ou não chegar ao fim do arco-íris, independentemente disso é preciso segui-lo, é preciso levantar a cabeça, fazer o que pudermos para encorajar nossos companheiros que estão desanimando - e encorajar o outro sempre renova também nossas próprias forças - e ir em frente. Muitos vão ficar pelo caminho, e, se optarem por virar cínicos azedos, nada mais poderemos fazer por eles. Se há ou não ouro ao final do caminho, talvez nunca venhamos a saber, mas, se pensarmos bem, viver seguindo um arco-íris não vale mais que todo o ouro do mundo? Alcançar ou não o objetivo final é uma coisa incerta, como quase tudo nesta vida, mas, mesmo que não o alcancemos, só o fato de termos tentado honestamente e com o coração, já será o bastante para que na hora da morte possamos concluir que não vivemos inutilmente
.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Leonardo e o "Lixo"

"Há cem anos, você teria de escalar uma montanha na Índia para aprender a meditar; hoje você pode fazer um curso pela Associação Cristã de Moços, copiar informações pela internet ou escolher entre centenas de livros na livraria mais próxima. Ao mesmo tempo, o excesso de informações contribui para o cinismo perverso, a fragmentação e o sentimento de desamparo. Temos mais possibilidades, mais liberdade, mais opções que quaisquer outros que viveram em nosso planeta. Mas também temos de nos haver com mais detritos, mais mediocridade, mais lixo do que jamais existiu." (Michael J. Gelb)

A citação acima é do livro Aprenda a pensar com Leonardo da Vinci, que, apesar de um certo ranço de auto-ajuda, merece uma leitura, tanto para os que já são fãs do maior gênio do Renascimento quanto para aqueles que ainda não sabem muito sobre ele e estão à procura de um ponto de partida - e que bom se tomarem o livro de Gelb como ponto de partida, ao invés de algum delírio danbrowniano qualquer. Aprenda a pensar... inclui uma breve biografia de Leonardo e, partindo dessa fonte de inspiração, guia o leitor através de pensamentos e exercícios mediante os quais Gelb propõe a quebra de certos hábitos mentais limitadores que a maioria das pessoas desenvolve sem perceber ao longo da vida. São coisas, no fundo, simples, como treinar os sentidos para reconhecer e apreciar a beleza em vez de passar batido por ela, ou dar liberdade para o nosso pensamento criativo funcionar, sem amarrá-lo com preconceitos ou idéias prontas. Todas as dicas são valiosas, mas o que disparou o meu "gatilho" desta vez foi essa citação, que reli hoje, copiada numa velha agenda na época em que li o livro. A questão que propus a mim mesmo foi: será que, a exemplo de certos produtos químicos, também a informação pode ser remédio ou veneno, dependendo da dose?

Diziam os filósofos do mundo greco-romano que a moderação em todas as coisas é a chave de tudo, ou, o que quer dizer o mesmo, que todos os extremos são viciosos. O que observo no dia-a-dia é que com a informação não é diferente.

Lidar com idéias - ressalvando que informação não é idéia, embora seja o ponto de partida mais comum para tê-las - é essencial para que o cérebro humano torne-se e permaneça ágil, pronto e capaz, e não só nos campos diretamente relacionados às tais idéias. Gente acostumada durante muito tempo exclusivamente a atividades braçais costuma demonstrar uma indigência mental que chega a causar espanto. Já lidei com pessoas que, confrontadas com as perguntas mais simples possíveis ("Sua data de nascimento, por favor?"), simplesmente abrem a boca e te olham com os olhos vidrados, como se você tivesse pedido para explicarem a teoria da relatividade de Einstein. Outras pessoas, que trabalham nas mesmas atividades e durante o mesmo tempo que as primeiras, mostram-se espertas e desenvoltas. A diferença? Essas pessoas, às vezes com menos escolaridade que aquelas outras, não deixam que o trabalho braçal que lhes dá o pão seja tudo em suas vidas: têm o hábito de ler jornais, ouvir rádio, informar-se de outras formas, e de conversar com seus colegas de trabalho e familiares sobre a informação assim obtida, debater, desenvolver idéias, formar opiniões. Isso mantém os neurônios fortes e alertas, prontos para qualquer situação que os solicite. Informação é bom.

Também já vi adolescentes e jovens adultos que, tendo recebido a melhor educação formal possível, com acesso a todas as facilidades do mundo moderno, conectados à internet, muitos deles já tendo viajado por vários países, parecem andar sempre com aquele ar vagamente entediado de cachorro bassê, mergulhados numa apatia profunda, num tipo todo especial de alienação que não permite o surgimento de uma fagulha de interesse ou entusiasmo por algum assunto ou atividade, qualquer que seja. Bombardeados dia e noite por milhões de mensagens de todos os tipos imagináveis, e sem preparo intelectual para separar o joio do trigo, esses jovens (e, sejamos sinceros, também outros não tão jovens) acabam jogando a toalha, preferindo fechar-se na concha de um mundo onde nada tem importância, nada vale a pena, e a vida resume-se a uma grande perda de tempo. Quem costuma agradecer por isso são traficantes de drogas e outros tipos que encontram maneiras de lucrar em cima de pessoas que buscam algum sentido para suas vidas, ainda que das maneiras mais estúpidas imagináveis. Hum... Informação é bom?

Informação é bom, dependendo do que se faça com ela. E o que cada pessoa irá fazer com a informação que recebe, depende das ferramentas que possua para tanto. Quando é bem assimilada, submetida a uma análise crítica, relacionada com o que já sabemos sobre o assunto - e sobre outros assuntos - e somada ao nosso repertório mental, a informação transforma-se em conhecimento, e nos enriquece, robustece, torna mais lúcidos, inteligentes e capazes de compreender o universo. Informação é como alimento. Corretamente processada (digerida?), passa a fazer parte do nosso todo. Porém, informação em excesso e/ou de má qualidade não pode ser assimilada como deveria, e, além de não nos trazer proveito, ainda pode nos fazer passar mal...

Quando escrevi acima que o processo de assimilação da informação requer que ela seja correlacionada com o que sabemos não só sobre o mesmo assunto, mas também sobre outros assuntos, não foi só para encompridar a frase. A meu ver, interdisciplinaridade, por mais que seja uma palavra comprida e deselegante, é também essencial, e essa é uma razão a mais para ser fã de Leonardo. Claro que pouquíssimos de nós teriam condições de se igualar a ele, que era pintor, escultor, arquiteto, inventor, geólogo, matemático, naturalista, filósofo, músico e cozinheiro de mão cheia, mas o importante aqui é ver as maravilhas de que nos tornamos capazes quando nos deixamos invadir pelo desejo de saber e de realizar, por um deslumbramento infantil e uma curiosidade sem limites perante o mundo e tudo o que nele existe, e derrubar esse pensamento rasteiro que desmembra o conhecimento humano em áreas incomunicáveis entre si e acredita que cada pessoa só deveria aprender o que vai "usar". Esse é um dos mais graves dentre os hábitos mentais limitadores.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Amor e genéricos

Estamos mergulhados num mundo onde as coisas chegaram a um ponto, em que muitas vezes as pessoas ficam com medo diante da possibilidade concreta de que um "relacionamento" (por sinal, odeio essa palavra: parece coisa de artigo de revista Cláudia) se transforme em amor. Eu entendo amor como o que acontece quando duas pessoas se dão as mãos após terem deixado cair todas as máscaras e armaduras e, mesmo assim, continuam gostando de olhar nos olhos uma da outra, sentindo-se bem lado a lado e achando tentadora a idéia de terem um único futuro em vez de dois futuros distintos - tudo isso de forma sincera, inteira, sem "e se" nem "talvez". O problema é que a mídia plantou em muitas cabeças a idéia de que uma relação de amor só é boa se tudo for perfeito, um interminável e maravilhoso mar de rosas - e, é claro, isso não existe na vida real. Por conta disso, a maioria simplesmente desiste e "termina" quando se depara com o primeiro obstáculo.

Vamos reconhecer: é bem mais fácil ficar nesse mundinho fútil dos "relacionamentos" do que amar de verdade, porque o amor, embora traga recompensas que nenhuma outra coisa na vida humana pode proporcionar, não oferece essas recompensas de graça - aliás, nada que valha a pena é de graça, isso é uma lei tão velha quanto o mundo: exige esforço e alguns sacrifícios, coisas que cada vez menos pessoas estão dispostas a fazer. Sempre vai ser mais fácil entrar num novo "relacionamento" a cada poucos meses, pular fora na primeira dificuldade e partir para o próximo da fila. Claro, viver desse jeito causa vazio e angústia, mas para que se preocupar com isso quando o mundo moderno oferece tantos paliativos para disfarçá-los? É só se encharcar de álcool ou de qualquer outra droga, afundar no trabalho como um condenado, dedicar-se ao sexo desvinculado de sentimento, descontar a frustração nas compras, "malhar" sem parar... Há muletas para todo tipo de aleijado.

terça-feira, dezembro 25, 2007

Índios

Todo final de tarde de domingo, preciso cumprir o ritual de me dirigir à estação rodoviária de São Leopoldo, a fim de retornar para a cidade onde trabalho. Há sempre uma certa melancolia nisso, já que significa voltar para um local e um trabalho onde, se pudesse escolher, não estaria. Entretanto, a viagem em si, que para muita gente seria aborrecida, eu consegui transformar num momento agradável: reclino o banco, ponho os fones nos ouvidos e, durante essa hora e meia, "viajo" também no sentido mental do termo, e, embalado pela música, ponho-me a pensar em milhões de coisas, das mais simples às mais profundas, o que sempre me faz chegar ao destino com novas idéias ou, no mínimo, com a cabeça um pouco mais clara. Naturalmente que é preciso uma certa dose de sorte, pois ocasionalmente, dependendo dos companheiros de viagem que se tenha, o ônibus pode virar uma feira livre... Mas não é esse o meu tema de hoje.

Na maioria das vezes, há meia dúzia de crianças pedintes circulando pela rodoviária, crianças que não se distinguiriam de dezenas ou centenas de outras espalhadas por toda a cidade, não fosse o fato de seus traços fisionômicos, tom de pele, tipo de cabelo e modo de falar as identificarem como descendentes de índios, o que, pelo menos para mim, dá muito em que pensar.

Parece haver algum método e organização no modus operandi dessas crianças: enquanto algumas se posicionam estrategicamente junto aos guichês de venda de passagens para tentar conseguir as moedas que os passageiros porventura recebam de troco, outras percorrem a área de espera entre as duas fileiras de boxes, às vezes pedindo uns trocados, outras vezes tentando vender peças de artesanato - feitas com inegável habilidade, mas sem praticamente nada a ver com qualquer coisa que represente uma cultura verdadeiramente indígena. A impressão que se tem é de que esses meninos e meninas foram orientados - quem sabe, treinados - para pedir, aí usado como verbo intransitivo, pois pedir o que é o de menos. Parece que o importante é pedir tudo o que for possível, mesmo sabendo de antemão que é impossível receber, para depois verificar se o obtido serve para alguma coisa ou não. Certa vez um menino de uns seis anos me disse daquele jeito trôpego de quem não está acostumado a falar português: "Me... dá... es... se... ra... dinho?" (apontando para meu discman) Em outra ocasião, eu estava trocando as pilhas do citado aparelho quando outro menino me pediu as pilhas velhas. Nem faço idéia do que pretendia fazer com elas. De resto, embora trabalhem, de certa forma, em equipe, o senso de solidariedade e companheirismo não parece estar muito em alta: uma vez dei um pacote de biscoitos para dois garotos, e imediatamente tive que apartá-los, pois os dois começaram a brigar por ele na minha frente mesmo, sem que lhes ocorresse a idéia de dividir.

O que mais me pergunto é se essas crianças têm alguma consciência do fato de que a terra onde elas e seus pais hoje levam essa existência precária, é a mesma da qual seus ancestrais um dia foram donos e senhores. É óbvio que têm pouco estudo, se é que têm algum, e, de mais a mais, não me consta que a educação formal oferecida em nossas escolas enfatize muito a triste história do destino que tiveram os habitantes originais do que hoje chamamos de nosso país, mas será que alguma coisa nesse sentido é passada de pais a filhos? Será que essas crianças sabem o que é ter uma história, por mais revoltante que seja? Não se preocupem, não vou desfiar aqui aquele discurso batido e absurdamente ingênuo que quase sempre aparece quando se fala nos brasileiros nativos: sei muito bem que a idéia de um "paraíso terrestre, habitado por povos inocentes e de coração puro, que viviam em perfeita harmonia com a natureza e uns com os outros" é uma rematada tolice, e que, muito antes de o primeiro europeu aqui pôr o pé, o continente americano já estava cansado de conhecer guerra, miséria, escravidão, exploração do homem pelo homem e todas essas outras mazelas ditas "civilizadas", pois o homem é o homem em qualquer lugar e seja qual for a raça. Porém, sempre é triste observar a perda da dignidade de qualquer ser humano, quanto mais a de povos inteiros. Mesmo que sua realidade estivesse longe de qualquer coisa paradisíaca, fosse por vezes difícil e violenta, esses povos tinham seu orgulho, sua cultura própria, seus meios de subsistência e sua liberdade - enfim, tinham as coisas essenciais que são, ou deveriam ser, direitos inalienáveis de todo ser humano, e diante das quais todos os confortos da "civilização" não passam de miudezas. E coisas que, uma vez perdidas, dificilmente são recuperadas.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Amando como homem


Numa recente noite de insônia, sem nada de especial a fazer, peguei na minha estante de livros o primeiro volume de As Brumas de Avalon e pus-me a reler alguns trechos meio a esmo. Faz alguns anos que li esse ambicioso romance em quatro volumes, que a autora, a americana Marion Zimmer Bradley, definiu como uma versão das lendas arturianas narrada do ponto de vista das mulheres. De fato, o livro tem um tom marcadamente feminino e, não raro, feminista. Não se pode negar que Bradley tinha um estilo hipnotizante, que tornava quase impossível não gostar de suas histórias, mas nesse, como em outros de seus livros, há detalhes que incomodam o leitor do sexo masculino. A autora põe muita ênfase no fato (que é fato: não tenho a mínima intenção de discuti-lo) de que existem sentimentos, vivências e idéias que as mulheres conhecem e que os homens jamais serão capazes de compreender - mas não parece lhe ocorrer em momento algum que talvez a recíproca também seja verdadeira.

Certa vez, num período em que estava desempregado, trabalhei em sistema free lancer para uma moça, advogada, que estudava história e sociologia por hobby e estava escrevendo um livro sobre "a condição feminina através dos tempos e suas repercussões no Direito contemporâneo". Meu trabalho consistia em ler trechos de diversos livros, fazer resumos, digitar e formatar o que ela escrevia, e assim por diante. Certa tarde em que se sentia particularmente cansada de sua rotina, que incluía o trabalho como advogada, dar aulas na faculdade, e ainda o livro, ela desabafou comigo que às vezes tinha vontade de "assumir seu papel de gênero" - o que, em bom português, quer dizer virar uma dondoca inútil. Olhei bem para ela e respondi que devia considerar-se com sorte de poder fazer isso, se um dia realmente quisesse, pois nós, homens, nem esse direito temos. Na hora, ela riu muito, mas tenho esperança de que mais tarde tenha refletido um pouco a respeito. O que quero dizer é isto: imagino que ser mulher não seja nada fácil, mas seria bom se fosse lembrado com mais freqüência que ser homem também não o é. Nós nunca vamos ter idéia do que é o martírio periódico de um ciclo menstrual, mas, da mesma forma, elas jamais serão capazes de imaginar o que é levar um chute no saco. Se ambos os lados simplesmente reconhecessem isso, metade das dificuldades no relacionamento entre os sexos estaria aplainada.

Acreditem, moças, pode ser revoltante viver numa sociedade que quer fazer com que vocês representem um papel de submissas, frágeis e dependentes - mas não é nada fácil viver nessa mesma sociedade que nos cobra que temos que ser fortes o tempo todo. Pior: a concepção de "força" aí envolvida é ridícula. Parece que demonstrar ternura a quem se gosta não é um comportamento que se admita naquilo que Luís Fernando Veríssimo denomina jocosamente de HQH ("homem que é homem"), parece que ser forte não é compatível com doçura ou generosidade, parece que o cara só será considerado "macho" pelos seus pares se for bronco e insensível. O adolescente que, numa daquelas rodas de pátio de escola, não se gabar da quantidade de garotas com quem "ficou", preferindo declarar que gosta de uma e só quer ela, será considerado, no mínimo, esquisito pelos colegas. Há até quem sustente que o natural no ser humano, ou ao menos nos homens, seria a poligamia, como acontece com a maioria das espécies na natureza. A explicação para a suposta tendência masculina para a poligamia e feminina para a monogamia seria então biológica: espermatozóides são baratos, já óvulos são caros, ou, melhor explicando, cada um dos sexos tem uma maneira diferente de garantir a perpetuação de seu patrimônio genético, que é o objetivo final da reprodução e, por conseguinte, de tudo o que direta ou indiretamente derivou dela, como essa coisa maravilhosa, terrível e totalmente sem sentido que nós, humanos, convencionamos chamar de amor. Para o macho, a maneira mais eficiente de passar adiante os seus genes seria fazendo sexo com o maior número possível de parceiras. Já a fêmea, que tem que arcar com todas as dificuldades da gestação e do cuidado com a prole, precisaria, por razões práticas, ser mais seletiva na escolha de parceiros. Porém, quem defende essa teoria esquece um detalhe fundamental: ao contrário dos outros animais, o ser humano tem livre arbítrio. Pode escolher agir assim ou assado, não precisa necessariamente ser um escravo dos instintos - embora também possa escolher ser isso, se quiser. O que eu queria aqui era apenas ressaltar como a combinação de elementos biológicos e culturais, encarados de uma maneira torta, criou na sociedade ocidental moderna uma idéia de "ser homem" que não satisfaz àqueles que, mesmo correndo o risco de serem tachados de ingênuos, ainda querem acreditar nos valores humanos essenciais.

A noção comumente aceita do que seria "masculinidade" é mais uma entre tantas pedras no caminho de quem, embora nascido com testículos, ousa ser romântico, sente a necessidade de entregar-se para valer quando gosta de alguém, ama sem meias medidas, não consegue gostar "um pouco", quer de verdade fazer a pessoa feliz, esforça-se por ser totalmente reto, claro, limpo e sincero, e só não se doa mais quando a moça não o permite. O amor parece ser um pouco como a política do Brasil: tanto num quanto na outra, parece que quem teima em agir com honestidade tem uma vida muito mais difícil do que quem opta pela pilantragem.

sábado, dezembro 01, 2007

Gethsemane

(Tuomas Holopainen / Nightwish)

Toll no bell for me, Father
But let this cup of suffering pass from me
Send me no shepherd to heal my world
But the Angel - the dream foretold
Prayed more than thrice for You to see
The wolf of loneliness in me
...not my own will but Yours be done...

You wake up, where's the tomb?
Will Easter come, enter my room?
The Lord weeps with me
But my tears fall for you

Another Beauty
Loved by a Beast
Another tale of infinite dreams
Your eyes they were my paradise
Your smile made my sun rise

Forgive me, for I don't know what I gain
Alone in this garden of pain
Enchantment has but one truth:
I weep to have what I fear to lose

You wake up, where's the tomb?
Will Easter come, enter my room?
The Lord weeps with me
But my tears fall for you

"I knew you never before
I see you never more
But the love, the pain, the hope, O beautiful one
Have made you mine, 'till all my years are done"

Without you
The poetry within me is dead

domingo, novembro 04, 2007

Todos os Nomes

"Um nome, que há num nome?", pergunta-se na peça de Shakespeare uma Julieta que novas e estranhas emoções tornam propensa a rompantes filosóficos pouco comuns para os seus 14 anos. E prossegue: "O que chamamos rosa, com qualquer outro nome teria o mesmo doce aroma". A rigor, essa sentença tão simples é sem dúvida verdadeira, mas, ainda que a ligação entre o nome e a coisa que ele designa seja fruto de mera convenção, não se pode pôr em dúvida que se trata de uma ligação extremamente estreita e forte. Num certo sentido, o nome é a coisa, e vice-versa.

Por essa razão, tenho para mim que uma das mais importantes decisões que nossos pais tomam ao longo de suas (e nossas) vidas, é a escolha do nome que nos hão de dar. Um nome forte, ainda que simples, e, se possível, escolhido também pelo seu significado, um nome que, depois de adultos, nos diga algo sobre nós mesmos, e com o qual nos sintamos à vontade como se fosse uma segunda pele, é um presente de valor inestimável.

É inevitável refletir sobre isso quando, no trabalho, lida-se diariamente com dezenas de pessoas, olha-se seus documentos, tomando contato com tantos nomes e com uma parte das histórias dessas pessoas. E é curioso observar como as preferências na hora de dar nomes às crianças parecem ter variado ao longo do tempo. Pessoas idosas tendem a ter nomes compridos, como se, três gerações atrás, os jovens pais de então fizessem questão de dar aos seus rebentos um mínimo de quatro sílabas: são Enedinas, Nazeazenos, Ornalinas, Astrogécilos, Dorcelinas... Suponho que, na época, isso fosse considerado elegante. Em todo caso, embora muitos desses nomes não sejam encontráveis naqueles interessantíssimos livros que investigam a origem e o significado dos nomes próprios, eles foram provavelmente dados como homenagem a alguma pessoa que os teve antes; de alguma forma, têm sua história.

O que realmente dá pena é ver os nomes que muitos pais de tempos mais recentes deram e estão dando aos filhos. Mesmo sem me interessar por futebol, é fácil notar que ouvir a escalação dos times é uma das melhores maneiras de se tomar contato com nomes "exóticos". O que um sujeito chamado Richarlyson, Odvan ou Rosinei iria fazer com um nome desses se não se tornasse um jogador de futebol? Até compreendo que, para seus pais - provavelmente gente simples, de poucos recursos e poucas letras - tenha parecido uma boa idéia escolher (ou inventar...) nomes "diferentes", que fossem "distinguir" os filhos em meio às multidões. Nunca achei oportuno perguntar a alguém com um nome desse tipo sua opinião, mas, pessoalmente, eu preferiria me chamar João (ainda que só na minha turma da escola houvesse mais três) e poder abrir um livro e descobrir que meu nome significa "Deus me Favorece", do que ter um nome que ninguém mais tem e que não significa coisa alguma, pelo simples fato de que não existia até meus pais sentarem diante de um tabelião e declararem que eu me chamaria assim ou assado. Para pior, tais nomes não serão únicos por muito tempo: já deve haver por aí pais/torcedores tirando certidão de nascimento para seus pequenos Richarlysons...

Até nomes de origem clássica podem tornar-se de gosto duvidoso, dependendo do motivo pelo qual são dados. Que o diga a pequena multidão de Édipos e Jocastas que hoje devem estar no fim da adolescência e que assim se chamam por obra e graça de certo autor de telenovelas que, lá pelo fim dos anos 80, decidiu se inspirar na obra de Sófocles para escrever mais um folhetim.

O pior de tudo são os falsos estrangeiros. São tantos Máicons, Diônatans, Uésleis, Tiarles, que carregarão pela vida afora o peso dessa combinação de pouca cultura com a vontade de pôr nomes diferentes. Meses atrás, atendi no meu local de trabalho um jovem de seus 20 anos cujo RG o identificava como "Diéssi" - na certa, o pai simpatizava com algum personagem de filme ou seriado americano conhecido por Jesse. Tive ímpetos de procurar algumas palavras de consolo para dizer ao rapaz.

Mas toda regra tem sua exceção, e, vez por outra, e ainda bem, mesmo um nome desse tipo pode ser usado com satisfação por quem o tem. Tive em tempos uma amiga muito querida que se chamava Deise - e, independentemente de ser um falso estrangeiro, sempre achei que o nome lhe assentava muito bem. Perguntei-lhe se sabia o significado. Ela sabia: vem do inglês "daisy", que quer dizer margarida. Acrescentei outra informação: a palavra no inglês moderno deriva da expressão anglo-saxônica para "olho do dia" (Day's Eye), como a flor era conhecida entre os antigos ingleses. A moça adorou saber disso. "Um nome, que há num nome?" Num nome há muita coisa, jovem Julieta.

sábado, outubro 13, 2007

Vinci e poucos

O sonho da argila

O vocábulo puro, em que me amparo,
esquiva-se a meu jugo, e raro canto.
Que a palavra da boca é sempre inútil
se o sopro não lhe vem do coração.

Mudo, contemplo os valorosos feitos
de quem funda caminhos sobre os mares
e edifica cidades, e ergue torres
de cujo topo logre dominar
o mundo inteiro
- e ver que o mundo é pouco.

Ante os que, cegos, trabalham a terra,
sorvendo-lhe os tesouros mais esconsos,
sem assombro, no convívio dos bois,
com eles aprendendo a ser humildes,
e dormem, vinda a noite, sossegados,
- permaneço calado, e todavia
algo em mim lhes inveja esse dormir.

Não me pranteio por saber-me turvo
ou por não me caber a paz dos brutos.
Sei que morro amanhã, mas não me louvo
a sóbria face que disfarça o medo.

Move-me ao canto ver que a sombra cresce
dentro de mim, enquanto um sol avaro
esplende oculto - em céus só vislumbrados
quando a argila, grotesca e ousada, sonha.
E ver o inútil dessa argila em sonho,
mais que mover-me ao canto, me comove.

Thiago de Mello

* * *

Gosto muito de poesia de diversos tipos, mas tenho uma tendência a apreciar de modo muito especial os poemas que dizem as coisas que eu próprio gostaria de dizer, se soubesse como. Aqueles que a gente lê e, simultaneamente à admiração, sente uma ponta (ou um iceberg) de inveja: "Deus do céu, o que eu não daria para ter escrito isso!" Um dos mais admiráveis exemplos da minha galeria é o poema acima, de autoria do amazonense Thiago de Mello - um poeta, diga-se de passagem, que mereceria fama muito maior que a que tem.

O motivo de gostar tanto desse poema em particular é que ele levanta uma questão com a qual eu próprio me debato. Muito já se disse e escreveu sobre a "solidão do gênio" - mas como se arranjam os que sofrem dessa mesma solidão, sem ao menos serem gênios? É natural que todos os que realizam grandes coisas sejam, inevitavelmente, criaturas solitárias, mas ao menos eles têm a consciência de suas realizações para se confortarem... E como ficam os que vivem no "limbo", os que pensam, e por isso perderam o direito à tranqüilidade da ignorância (a "paz dos brutos" de que fala Thiago de Mello), mas não têm suficiente talento para grandes feitos?

O simples fato de alguém adquirir um bocadinho de cultura, e, conseqüentemente, desenvolver uma mentalidade que ultrapasse ligeiramente o medíocre, basta para condenar essa pessoa a uma solidão não menos dolorosa do que aquela que devia afligir Leonardo da Vinci - mas sem trazer como compensação a capacidade de pintar uma Mona Lisa, arquitetar edifícios grandiosos, inventar máquinas mirabolantes, falar várias línguas, esculpir, compor, tocar vários instrumentos musicais... Entre outras "coisinhas" que esse senhor fazia.

A sensação de estar sempre nadando contra a correnteza é aflitiva, e ainda mais aflitiva se torna quando nos damos conta de que há mais: quando se está nadando contra a correnteza e, além disso, nadando no meio de uma multidão de pessoas que nem percebem que existe uma correnteza. Perceber que todo o nosso sistema de valores é particular - quer dizer, que temos noções diferentes das de todos sobre o que é importante e o que não é - implica uma visão diferente do mundo. Num certo sentido, em viver num outro mundo. Um mundo onde ter cultura vale mais que ter um peitoral definido, onde o conhecimento deve servir para fazer de nós seres humanos mais plenos, e não meramente para ganhar dinheiro, um mundo onde nenhum carro do ano na garagem e nenhum nível de status valem o ato de vender a alma a um sistema desumano.

Entendo que Thiago de Mello fala da aflição de estar acordado num mundo onde todos parecem profundamente adormecidos, e, para além disso, da outra aflição, a de saber que outros que despertaram antes de nós realizaram grandes feitos pelos quais serão lembrados para sempre, e que isso não é para todos - nem mesmo para todos os que estão acordados. Porém, há o conforto de saber que, mesmo sem fazer algo que ponha nosso nome nas páginas da História, podemos fazer algumas coisas para que este mundo ganhe um pouco mais de sentido.

Estar acordado vale a pena.

domingo, outubro 07, 2007

The Mask and Mirror

The Dark Night of the Soul

Upon a darkened night
the flame of love was burning in my breast
And by a lantern bright
I fled my house while all in quiet rest.
Shrouded by the night
and by the secret star I quickly fled
The veil concealed my eyes
while all within lay quiet as the dead.

Chorus:

Oh night thou was my guide
oh night more loving than the rising sun
Oh night that joined the lover to the beloved one
transforming each of them into the other.

Upon that misty night
in secrecy, beyond such mortal sign
Without a guide or light
than that which burned so deeply in my heart.
That fire t’was led me on
and shone more bright than the midday sun.
To where she waited still
it was a place where no one else could come.

Chorus

Within my pounding heart
which kept itself entirely for her
She fell into her sleep
beneath the cedars all my love I gave.
From o’er the fortress walls
the wind would brush her hair against her brow.
And with its smoothest hand
caressed my every sense it would allow.

Chorus

I lost myself to her
and laid my face upon my lover’s breast
And care and grief grew dim
as in the morning’s mist became the light.
There they dimmed amongst the lilies fair
there they dimmed amongst the lilies fair
there they dimmed amongst the lilies fair.

* * *

Lembro bem de quando e como conheci Loreena McKennitt. Foi no quente e sufocante início de 1996. Eu tinha 21 anos e, pela primeira vez, estava num emprego que durou tempo suficiente para que eu precisasse passar um verão sozinho na cidade, enquanto o resto da família ia à praia. Era um emprego não muito diferente do que tenho agora - igualmente burocrático e desagradável. De férias da faculdade, adquiri o hábito de fazer um, como dizem, "happy hour": ao largar o trabalho no final da tarde, antes de ir para casa, passava pelo shopping da cidade para um café ou um sorvete e para desanuviar um pouco a cabeça. Depois, dispensava o ônibus e ia para casa a pé.

Ocasionalmente, visitava a loja de CDs do shopping, a BeBop (será que ainda existe em algum lugar?). O vendedor me conhecia e sabia que, embora eu fosse muito seletivo, não tinha o costume de economizar quando alguma coisa me agradava, de modo que não fazia objeção a que eu ficasse um tempo ouvindo alguns CDs. Foi dessa forma que, por puro acaso (ou assim me pareceu), certa tarde pus no player um disco intitulado The Mask and Mirror, de uma (para mim) totalmente desconhecida cantora chamada Loreena McKennitt.

Sua música me impressionou de saída. Não podia ser facilmente definida, nem mesmo sob o rótulo "new age/world music", que naqueles dias aceitava praticamente qualquer coisa. A voz de Loreena é ao mesmo tempo suave e poderosa, altamente disciplinada, e os músicos que a acompanham, de altíssimo nível, manuseiam diversos instrumentos exóticos, de sonoridade inusitada. As músicas têm um quê de celta, mas não se limitam a isso - um campo já tão exaustivamente explorado por centenas de artistas -, unindo ainda elementos melódicos árabes, ibéricos, orientais, além de outras coisas que até hoje não fui capaz de identificar. Um som único, envolvente, rico, vigoroso, sensual, impossível de descrever. Só mesmo ouvindo para saber. E as letras não ficam atrás, pois, além de ser uma poetisa de muito mérito, Loreena é também uma pesquisadora de fôlego, capaz de adaptar e utilizar o melhor da poesia universal, e não só de língua inglesa. Em The Mask and Mirror, por exemplo, a música Prospero’s Speech é uma adaptação de um trecho da peça A Tempestade, de Shakespeare, enquanto a própria canção de que quero falar, The Dark Night of the Soul, nada mais é que uma versão belíssima para o poema Noche Oscura ('Noite Escura'), de São João da Cruz.

A primeira coisa que fiz foi comprar o CD e levá-lo para casa. Quase todas as noites daquele longo verão, daí em diante, cumpri o ritual de apagar a luz, me deitar, pôr os fones e ouvir mais uma vez esse disco fantástico, que me falava, através da música e da poesia, de coisas belas, às quais valia a pena almejar. As recordações desagradáveis do dia de trabalho, das tarefas rotineiras, das pessoas mal educadas, dos colegas que só sabiam discutir aos berros sobre futebol, tudo isso se dissolvia sem que eu precisasse fazer nada, a não ser me entregar à beleza da música. Quando o disco terminava, eu estava suspirando fundo, me sentindo em perfeita paz, e pronto para uma noite de sono revigorante.

Também tratei de saber quem tinha sido esse São João da Cruz, e isso não foi tão fácil, pois, na época, internet era algo de que os mortais comuns apenas estavam começando a ouvir falar. A biblioteca da Unisinos quebrou meu galho. São João da Cruz foi um monge carmelita espanhol, nascido em Fontiveros, na região de Ávila, em 1542, e falecido em Ubeda em 1591, no dia 14 de dezembro, data na qual sua memória é agora celebrada pela Igreja. Em 1726 foi canonizado pelo papa Bento XIII, e, em 1952, eleito patrono dos poetas espanhóis.

João da Cruz é reverenciado não apenas por católicos - foi um grande místico e um poeta de enorme talento, coisas pelas quais pode ser admirado por gente de qualquer religião, ou até por quem não acredita em coisa alguma. Sempre foi comum que religiosos se dedicassem à poesia com temas sacros, mas ele se destacou, não apenas por fazê-lo com uma força artística muito acima da média, como também por seus poemas se prestarem a mais de uma leitura. Seus versos parecem por vezes impregnados de uma carga de erotismo que pode soar perturbadora, quando se recorda que quem os escreveu era um religioso. A metáfora de Noche Oscura - a alma humana, em seu desejo de encontrar Deus, sendo comparada a uma jovem que anseia por estar com seu amado - não é inédita na poesia cristã, e já não o era no tempo em que viveu o nosso poeta, mas duvido que alguém mais tenha tratado o tema de uma forma tão doce e pungente quanto ele. E a adaptação de Loreena não deixou que se perdesse nada da beleza e da emotividade da poesia original.

Meus leitores que tiverem percorrido com atenção a transcrição que fiz da letra de The Dark Night of the Soul certamente terão notado que ela aparece aqui como tendo sido escrita do ponto de vista de um homem. No original não era assim: João da Cruz escreveu Noche Oscura com um eu-lírico feminino, já que a alma era figurada como uma moça que escapa durante a noite para encontrar seu amado. Loreena McKennitt, claro, manteve a coisa assim. Quem fez essa alteração, trocando todos os pronomes masculinos - he, his - pelos correspondentes femininos - she, her - foi este que vos escreve, naquele verão há quase 12 anos. Copiei a letra, com essas adaptações, e a preguei na parede do meu quarto. Não havia perigo de ter que dar explicações, pois ninguém da minha família sabia inglês suficiente para ler aquilo.

Essa mexida no poema foi uma maneira que encontrei de me apropriar um pouco dele. E quis fazer isso porque essa canção foi minha primeira lição sobre o fato de que o amor pode existir sem ter um objeto. Enquanto estava deitado no escuro, ouvindo The Dark Night of the Soul, eu podia senti-lo em mim, com uma nitidez e uma certeza que não deixavam dúvidas. Simplesmente não havia ninguém a quem oferecer esse amor, nem sequer alguém a quem dirigi-lo - em 1996 eu estava sozinho fazia tempo, e não havia conhecido mais ninguém que me des-pertasse interesse -, mas o desejo de amar e de dar amor estava ali, não menos forte por ser indefinido. Um desejo tão intenso que era quase doloroso, de ter alguém com quem partilhar aquele momento, aquela canção, alguém a quem abraçar, mexer em seu cabelo, olhá-la nos olhos e sentir que fazíamos o mundo melhor, ao menos um para o outro. Um desejo impossível, mas isso é assim mesmo: não raro, as coisas que mais vale a pena desejar são precisamente aquelas que não se pode ter.

O poema fala sobre um desejo de entrega, de se abandonar ao ente amado, dar-se por inteiro a ele ou ela. João da Cruz não precisava preocupar-se com isso, já que estava falando da comunhão da alma humana com Deus, mas suponho que, por conta disso, minha adaptação soe estranha a muita gente. Nossa (nossa?...) cultura parece só considerar esse sentimento justificável para o sexo feminino, ou assim era antigamente - hoje em dia, nem mesmo para o sexo feminino: tanto homens quanto mulheres usam a palavra "amor" a torto e a direito, sem o menor critério, e geralmente, para evitar mal-entendidos, deve-se traduzir "amor" como significando simplesmente sexo mecânico, apenas para satisfação física, sem conexão alguma com coisas tão "bregas" quanto carinho, ternura, respeito ou importar-se um com o outro. De todo modo, parece que "não fica bem" a um homem ter o desejo de amar com essa intensidade, querer pertencer à amada, fazer-se com ela uma só pessoa, ansiar sinceramente por fazê-la feliz. É mais uma coisa, entre tantas, a fazer com que eu me pergunte de que mundo vim e o que estou fazendo neste.