quarta-feira, outubro 21, 2009

As Estantes Infinitas

Acabava de ocupar meu assento no ônibus intermunicipal para a costumeira viagem de uma hora e meia que, para mim, marca o fim do fim de semana (fim do fim?... Hum, deixa pra lá, sei que vocês entenderam) e, como sempre faço nesses momentos, abri minha mochila para ligar o discman e pôr os fones nos ouvidos - só que aí percebi que tinha esquecido em casa os meus fones especiais com isolamento acústico. Com um aflito “Oh, não!” em pensamento, abri o bolso frontal da mochila na esperança de achar ao menos um daqueles fonezinhos vagabundos que vêm com os MP3-players e que costumo levar como reserva - mas nem isso encontrei. Resignado, acomodei-me para passar os 90 e poucos minutos seguintes sem ouvir música e, o que é pior, tendo que ouvir as conversas dos outros passageiros, coisa da qual não faço a menor questão.

Há sempre a possibilidade de se estar enganado e de que eu fosse brindado com um delicioso silêncio quebrado apenas pelo ronco distante do motor do ônibus, mas foi questão de minutos que certa senhora que sempre viaja junto comigo começasse a sua algaravia. Ela tem um tipo de voz que sempre me perguntei como poderia descrever se precisasse, mas nunca tinha achado a palavra até aquele momento, quando então a palavra, repentinamente, se apresentou por si mesma: era o que um romancista definiria como uma voz “asmática”. E começou a voz asmática da tal senhora a falar com alguém sentado ao lado dela sobre o estado lastimável em que estavam suas unhas, por ter passado o fim de semana arredando geladeira, armário e outros objetos pesados. Céus, o que eu não teria dado naquele momento para estar ouvindo qualquer coisa do grande Deep Purple. Mas, na presente situação, o que me restava era tentar abstrair. De modo que me transportei de volta para a noite da véspera. Uma noite de sábado.

O cenário era o shopping Praia de Belas, onde eu e a menina que estava comigo chegamos depois de uma longa e agradável caminhada de fim de tarde regada a conversa pela orla do Guaíba, começando na Usina do Gasômetro. Mais exatamente, o cenário era um lugar específico do shopping, a Saraiva Megastore, onde inevitavelmente acabamos, depois de um bom jantar e de um excelente chocolate quente na lojinha da Kopenhagen. Entrar lá e andar por entre todas aquelas estantes, sentindo o ar carregado com o cheiro de papel novo e tinta, sempre me pareceu uma experiência profundamente sensual e um tanto mística, algo que só quem viveu em estreita simbiose com os livros durante toda a vida (ou, ao menos, durante muitos anos) pode chegar a compreender. Mesmo na época em que raramente podia comprar algum livro, eu gostava de ir lá, percorrer com olhos sonhadores aquele mar de lombadas, pegar ao acaso um livro que chamasse a atenção pelo título, ou sobre cujo autor eu soubesse um pouco... Hoje, então, que não preciso mais passar a privação de sair de lá sem levar alguma coisa, a visita a tal lugar tornou-se ainda mais agradável.

A moça, que também é uma leitora inveterada (não saio com quem não seja: podem desistir) comentou, com palavras ligeiramente diferentes, sobre o “garimpo” que é encontrar, no meio de todos aqueles livros, um que nos agrade e vá nos proporcionar longas horas de prazer e, possivelmente, nos ensinar coisas interessantes. Concordei, e fui mais além: é um tanto aflitivo pensar que ali, no meio de milhares de livros, pode haver um ou alguns que, se os lêssemos, poderiam operar mudanças importantes em nossas vidas - pois há livros que têm esse poder. Houve livros que me chamaram a atenção logo que os tive diante dos olhos; por outros eu não teria dado nada a princípio, mas, por uma ou outra razão, comecei a lê-los e não me arrependi. Como saber quantos e quais, entre aquelas fileiras intermináveis de livros, são aqueles dos quais eu inesperadamente iria gostar, mesmo não sendo de autores que eu recomendaria, nem sendo dos gêneros que normalmente prefiro? Cara, isso é aflitivo.

E uma ideia leva a outra, é claro. Richard Bach escreveu: “Mesmo com todos os livros que já temos, ainda há tantos por escrever!” E há. As estantes físicas têm espaço limitado, mas, ainda que o mundo inteiro ficasse coberto de livros, mesmo assim não poderíamos pensar que tudo já teria sido dito. Como o discípulo de um mestre zen aprendendo que sua educação jamais estará completa, sou levado à conclusão de que o legado cultural da humanidade continuará para sempre em construção. E todos fazemos parte disso - até mesmo, querendo ou não, quem não lê. A diferença é que ler, refletir, interligar, construir sua própria cultura, é assumir um papel de protagonista nesse processo, ao invés de mero figurante.

Teria sido tudo efeito do chocolate? Se me atrevesse a tanto, eu escreveria um ensaio borgeano (referência a Jorge Luís Borges) sobre “a esmagadora infinitude das estantes imaginárias”. Talvez, lá na pontinha de uma dessas estantes (o que é contraditório, pois, se é infinita, não tem pontinha) houvesse um lugar para mais esse livro.

terça-feira, julho 14, 2009

Comunicação

"Que arriscado e conturbante é a gente se tirar das solidões fortificadas!" (Guimarães Rosa)

Homens como Samuel Morse, inventor do telégrafo, Alexander Graham Bell, que desenvolveu o telefone, e tantos outros que devotaram seu gênio e seu suor a facilitar a comunicação entre os seres humanos, ficariam atônitos se voltassem ao mundo nos dias de hoje e pudessem ver como as coisas são agora. Hoje, quase todo mundo anda com um aparelhinho de bolso por meio do qual pode ser encontrado a qualquer momento e quase em qualquer lugar. Textos, imagens, músicas e vídeos podem ser enviados de um lado a outro do globo de forma instantânea e sem custo algum. Não há mais o menor perigo de duas pessoas perderem o contato, estejam onde estiverem. Sentado aqui, à minha mesa de trabalho, numa cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul, posso contatar meus amigos de São Paulo, da Itália ou do Japão, sem ao menos precisar tirar a bunda do assento. Sim, são coisas espantosas e maravilhosas, se pararmos para pensar por um instante.

O que é tristemente irônico é que toda essa facilidade de nos comunicarmos não parece estar contribuindo para aproximar as pessoas. A não ser em casos raros e específicos, parece ocorrer o contrário: esses novos aparatos nos soterram sob avalanches de informação sem sentido que acaba gerando apatia, e nos colocam em contato superficial com multidões de pessoas - impedindo um contato profundo com qualquer uma delas. A caixa de entrada de meu e-mail do trabalho é bombardeada diariamente com 20 a 30 mensagens, a maioria trazendo anexos enormes, contendo instruções, relatórios, normativos, notícias, estatísticas e sabe Deus o que mais, enviadas por diferentes setores da instituição para todos os nomes de uma imensa lista da qual, infelizmente, eu faço parte. Nunca vou ler isso tudo, a menos que deixe de trabalhar para cuidar só do e-mail, mas alguém pensa nisso antes de me mandar arquivos em PDF com 30, 40 páginas? O MSN virou uma ferramenta indispensável para gerenciarmos nossos contatos, sejam eles pessoais ou profissionais, mas também nos reduziu, aos olhos uns dos outros, a simples rostos e nomes. Adolescentes, e também outros que já não o são há um bom tempo, gabam-se (como se isso tivesse algum mérito) de ter 150 “amigos” no MSN ou no orkut. A vontade que me dá é perguntar: amigos? Amigos? Quantas dessas 150 pessoas realmente sabem quem você é, ou quantas delas você realmente sabe quem são? Quantas conhecem ao menos detalhes básicos a seu respeito, como em que cidade nasceu, que tipo de música prefere ou como é sua relação com sua família? Com qual dessas pessoas você pode contar quando está triste e precisa conversar? Eu tenho seis pessoas no MSN e já acho isso quase demais. Só considero uma dessas pessoas realmente uma amiga (porque, como no caso de tantas outras palavras, também esta é usada por aí com excessiva liberalidade para o meu gosto). Tirando isso, a maioria das pessoas com quem cheguei a falar por MSN apenas contribuiu para aumentar minha sensação de solidão - pois é essa a sensação que bate quando você está tentando conversar com alguém que demora 20 minutos para lhe responder porque também está falando com outras dez pessoas, além de responder e-mails, baixar músicas, assistir a vídeos, ler as notícias do dia e movimentar sua conta bancária. Tudo ao mesmo tempo.

Saí com uma jovem que não parava de atender ao celular enquanto estava comigo. Depois da terceira vez que me vi obrigado a ficar sentado com uma polida cara de quem não está ali, enquanto ela se alongava em conversas com sei-lá-quem, decidi que já tinha tido o suficiente: não voltei a sair com ela, e não senti falta. Ficar com uma pessoa dessa maneira é só uma outra forma de solidão. E parece que essa é uma tendência generalizada: você tem dezenas de amigos, mas quando foi a última vez que se sentou com um desses amigos por algumas horas, com os celulares desligados, para conversar, ou fazer algo juntos, ou não fazer nada, simplesmente ficar na presença de alguém que é seu amigo e sentir que isso lhe faz bem? O mundo moderno multiplicou exponencialmente a quantidade de nossas relações, mas fez a qualidade delas cair de forma abissal. Não temos mais tempo uns para os outros - parece que basta saber que a pessoa "está lá". E no entanto, que grave erro é acreditar que isso basta... Um erro que, geralmente, só percebemos quando já é demasiado tarde para repará-lo.

Por mais mirabolantes que sejam os instrumentos de comunicação ao nosso dispor, eles não são capazes de cobrir o abismo que cavamos à nossa própria volta quando estamos muito acomodados para dar-nos ao trabalho (e, o que é mais, correr o risco) de dar um passo em direção ao outro, olhá-lo nos olhos sem disfarces, dizer em alto e bom som o quanto ele é importante para nós e o quanto nos faz felizes tê-lo em nossas vidas. Não há celular a seis centavos o minuto que substitua uma boa e franca conversa, não há MSN que preencha o vazio de não ter o prazer da companhia de um amigo, não há webcam que valha por um forte e demorado abraço. Por isso, e por mais que seja verdade que "conselho é aquilo que o sábio não precisa e o tolo não aceita", eu lhe digo, a você que me lê neste momento: deixe a vergonha e os preconceitos de lado e diga hoje aos seus amigos, pais, filhos, esposa, marido, namorada, namorado e a qualquer outra pessoa de quem você goste o quando eles são importantes para você. Pare de achar desculpas para não lhes dar atenção ou passar mais tempo com eles, esqueça a internet, desligue o celular. Você chegou a este mundo sozinho e vai sair dele do mesmo jeito, portanto não desperdice a chance de ter esses preciosos companheiros de jornada ao seu lado (realmente ao seu lado, ainda que a distância) enquanto pode.

quinta-feira, abril 23, 2009

Marte e Vênus: um só planeta

- Aline! Que bom que veio!
- Ora, e eu ia perder a oportunidade de matar saudades? Como você está, moço?
- Vou muito bem! Vamos sentar ali?
- Claro.
- Sabe, é legal estar aqui conversando com você! Muitos caras acham difícil entender que eu goste tanto da companhia de uma menina, mas tenho culpa se eu não consigo achar que a vida se resuma a beber cerveja e falar de futebol ou da anatomia de celebridades?
- (risos) Como se conversas masculinas também devessem obrigatoriamente incluir gostosonas e futebol.
- Uma vez falei isso para um conhecido e ele perguntou se eu preferia conversar sobre novela e salões de beleza... Como se ele achasse que é obrigatório uma mulher só pensar nessas coisas, entende?
- Sério, eu não sei como a maioria dos homens não se ofende... não obrigada, traz só um guaraná? ...Obrigada!
- Pra mim uma Pepsi Twist, por favor.
- Então ....não sei como os homens não se ofendem com esse estereótipo do próprio machismo que sustentam. Porque o machismo não só transforma mulheres em objetos, mas também faz parecer que homens não têm uma cabeça de cima. Acho que é por isso que muitos homens não conseguem ter amizade com meninas, estão sempre achando que elas não passam dos atributos físicos que têm, ou da capacidade de dissertar sobre o último episódio da novela da Globo... Legal esse barzinho, nunca tinha vindo aqui.
- Sim, também gostei... Bem, Aline, eu acho que isso tudo começa porque as pessoas simplesmente aceitam o rótulo que a sociedade gruda nelas assim que nascem - não pensam na possibilidade de ser diferentes.
- Hm. Exemplo?
- Parece que a "macheza" está condicionada a ser uma criatura óbvia, primária, sem nenhuma idéia nova ou interessante, que pensa que amizade só é possível com outros homens, porque mulher é só pra "transar", e acha que qualquer conversa sobre pensamentos ou sentimentos é "frescura". E o pior é que parece ter sido assim por tanto tempo, que até as mulheres acabaram assimilando essa noção: por mais que passem maus pedaços ao lado de caras assim, acham que não tem jeito, porque "homem é assim mesmo".
- Nem me fale. E quando a mulher que vai além de um corpinho bonito e que consegue estabelecer conversas legais e interessantes, acaba se integrando ao grupo de amigos de um cara? É claro que já depende do cara. Mas por ser uma menina em um grupo de amigos exclusivamente masculino, eu já fui considerada por eles como "homem". E vou te dizer uma coisa, Marcos... não existe coisa mais repugnante do que ser considerado um elogio e uma atitude de respeito destituir a pessoa do que ela realmente é para ser considerada uma "igual".
- Puxa!... E te dou inteira razão de ficar chateada com isso! Isso nada mais é do que um preconceito velado, ou até inconsciente, mas, mesmo assim, um preconceito! E não só quando um homem diz a uma mulher que ela é "como se fosse homem". É a mesma coisa dizer a um negro que ele tem "alma branca", ou a um velho que ele tem "espírito jovem" - e achar que está fazendo um elogio!... Ao contrário, eu acho esse tipo de declaração ofensivo à classe de pessoas a quem se dirige, pois o que fica implícito nelas é que o homem é melhor que a mulher, que o branco é melhor que o negro, e que o jovem é melhor que o velho!
- Isso mesmo! Por isso fiquei tão ofendida. Foi como ele ter dito: "não te considero uma igual, porque não quero me comparar a uma mulher. Para sermos iguais, você precisa ser homem".
- Sei exatamente do que você está falando, e acredite, como em tudo na vida, essa moeda tem dois lados... Também é horrível para um homem perceber que, para a maioria das mulheres, um cara que consiga conversar com elas, que as entenda e respeite pelo que são, justamente por causa disso deixa de ser encarado como homem!
- Sério que isso acontece?
- Pior que sim. Tipo, as moças se queixam da falta de sensibilidade masculina, dizem que o companheiro ideal seria um cara sensível, inteligente, gentil, romântico - mas quando topam com um, relegam-no à condição de amiguinho e continuam a se apaixonar por ogros, porque, de tanto serem expostas à noção que a sociedade faz do que seja ser "homem", não conseguem enxergar um cara como um ente masculino, a menos que ele aja como um ogro!
- Onde tá escrito mesmo que homens e mulheres não podem ser amigos juntos sem deixar de ser o que são? Não se pode deixar de considerar homem um cara que é mais sensível que a média troll da população. Da mesma forma, não se pode deixar de considerar mulher uma garota que goste de quadrinhos e RPG. Porque sensibilidade não é uma característica exclusiva feminina, é uma característica humana! Da mesma forma, coisas como hq's e videogame é coisa da cultura humana, e não masculina. Aliás, ali do outro lado da rua tem um fliperama. Vamos lá? Compro umas fichas.
- Podemos ir sim, mas já vou avisando que devo estar enferrujado, faz anos que não entro num!
- Não tem problema, eu pego leve. Ei, moço! Deu dois reais aqui o meu, né?
- Não se incomode, eu pago... Está vendo? Isso é outro aspecto do que a gente falava há pouco. Pequenos gestos de cavalheirismo não machucam ninguém, independente do sexo. Conheço muita gente - tanto homens quanto mulheres - que acham esses gestos um assunto complicado, o que na minha opinião, é pura insegurança de ambos os lados! Enquanto o cara fica pensando: "Será que fica 'esquisito' se eu abrir a porta do carro para ela?", a mulher, se for do tipo paranóico, pode, por sua vez, pensar: "O que esse cara tá pensando, que eu não sou capaz de abrir a porta sozinha?"
- Olha... Preciso mesmo te apresentar para alguns dos meus amigos trolls!
( Em parceria com Aline Valek! )

domingo, fevereiro 08, 2009

Benjamin Button

"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.


Você vai para o colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?"

Charles Chaplin
* * *

Esse pensamento de Chaplin não inspirou o filme O Curioso Caso de Benjamin Button, que é baseado num conto de F. Scott Fitgzerald de 1921... Mas bem que poderia tê-lo inspirado. Em mim, a lembrança foi automática, e passei um pouco de trabalho com o site de busca para encontrá-lo de novo, justamente porque queria pô-lo aqui. No mais, este não vai ser um comentário filmográfico como alguns que já fiz no meu outro blog, o Notas de Literatura; é muito mais difícil dizer algo interessante sobre um filme como este do que sobre os que comentei lá, então será uma coisa meio surrealista: os sentimentos que ele me despertou irão direto para o teclado, sem passar pelo crivo da razão.

Benjamin (o nome é o do mais jovem dos doze filhos do patriarca bíblico Jacó, e, nos países de língua espanhola, significa "caçula"; coincidência?) é um garoto que nasce com uma característica estranha: recém-nascido, apresenta todos os sintomas de degenerescência física normalmente encontrados em pessoas muito idosas, e, à medida em que o tempo passa, vai rejuvenescendo. Cresce num asilo, e aprende desde cedo a conviver com o fato de que as pessoas morrem. "We're meant to lose the people we love. How else would we know how important they are to us?" Essa é uma das frases mais interessantes do filme. Não é uma lição fácil para ninguém aprender, e ainda menos para um homem que vê todos os seus amigos envelhecerem e morrerem enquanto ele próprio fica cada vez mais jovem. Benjamin faz amizade com Daisy, neta de uma das moradoras do asilo, os dois se entendem, suas mentes infantis fazendo contato por cima da aparência precocemente envelhecida dele - uma amizade que não é vista com muito bons olhos por outras pessoas, em especial pela avó de Daisy. Já adolescente (o que, no seu caso, significa que chegou ao início da velhice, ainda - ou já - com algum vigor físico), Benjamin vai trabalhar no mar. Corre o mundo como marinheiro, passa por experiências juvenis como a primeira paixão - que não é exatamente a primeira, já que Daisy nunca saiu de sua cabeça -, só que com a mente juvenil pilotando um corpo maduro. O barco onde trabalha é recrutado como unidade de apoio para a marinha dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial, e Benjamin vê de perto outro tipo de morte, observando que, ao contrário do que acontecia no asilo onde cresceu, "ali a morte não parece uma coisa normal"... Quando finalmente volta para casa, reencontra Daisy, já adulta e seguindo a carreira de bailarina. Muitas coisas acontecem, mas os dois acabam se acertando e ficando juntos, durante os breves anos em que suas "cronologias" coincidem: Daisy amadureceu até certa idade, e Benjamin rejuvenesceu até a mesma. Quando se torna um jovem de seus vinte e poucos anos, ao passo que Daisy se aproxima da meia-idade, Benjamin decide partir, apesar de amá-la, porque, segundo diz, a filha que tiveram "precisa de um pai, e não de um amiguinho". Daí em diante, o componente fantástico da história atinge seu máximo grau de "fantasia", com conseqüências tão comoventes quanto inevitáveis. Para saber mais, vejam o filme - vale muito a pena.

Como em quase tudo na vida, no que toca a cinema eu também tenho momentos diferentes. Algumas pessoas gostam apenas de um ou de poucos tipos de filmes; eu não. Assim como existem músicas que são para relaxar e outras para injetar adrenalina, assim como alguns livros são para estimular a reflexão e outros meramente para empolgar com narrativas emocionantes (e, por que não?, alguns conseguem fazer as duas coisas), também há filmes que envolvem e comovem, e outros que só mesmo divertem. Nada errado com isso. E preciso confessar que fazia tempo que um filme não me comovia tanto quanto esse.

Não é a primeira vez que me pergunto como seriam os fatos comuns da vida, vistos pelos olhos de uma criatura incomum - quero dizer, ainda mais incomum do que eu e uma ou duas pessoas que conheço. Imagine-se como uma pessoa em cuja ampulheta a areia escorre para cima, cujo relógio gira da direita para a esquerda, e que por isso, querendo ou não, acaba por ter da vida um ponto de vista que as outras pessoas nunca poderão ter. Vendo coisas que estão ocultas dos outros (e, por vezes, querendo que estivessem ocultas também de você, mas essa decisão não é sua). Aprendendo o exato valor de momentos e palavras que de outra forma iriam embora com o vento, sem que lhes fosse dedicado um só pensamento. Ciente de que vai ter um fim, como todos os outros, mas, ao contrário desses outros, sem o conforto de ter entes queridos caminhando ao seu lado ao encontro desse fim, para tornar a perspectiva menos assustadora.

Cada pessoa que for assistir a O Curioso Caso de Benjamin Button sairá do cinema com pensamentos diferentes. Em mim, o pensamento foi o de que um filme assim nos oferece a valiosa oportunidade de pensar sobre o valor de certas coisas e pessoas em nossas vidas, sem antes precisar perdê-las. Momentos bons devem ser vividos com os olhos bem abertos e os sentidos bem alertas, em vez de apenas passarmos por eles como por um fato consumado. E as pessoas que amamos devem ouvir da nossa boca que as amamos, enquanto temos a chance de dizê-lo. Oportunidades perdidas raramente voltam, mesmo para quem vive de marcha-a-ré, como Benjamin Button.

domingo, janeiro 18, 2009

My Inner Wilderness

Wilderness é daquelas palavras difíceis de traduzir. De acordo com o babylon.com, que oferece um dicionário inglês/português online, as possíveis definições são: "imensidão, vastidão; deserto; floresta; espaço aberto; território descampado; mistura, confusão; jardim para plantas selvagens". Enfim, wilderness pode ser praticamente qualquer coisa que dê idéia de um lugar selvagem e pouco habituado à presença humana. Quando escolhi o nome Inner Wilderness para este meu blog, isso já faz um ano e alguns meses, era precisamente essa a idéia que eu queria que o título expressasse: a minha "selva interior", aquela imensidão misteriosa, emaranhada e possivelmente perigosa, onde é sempre um risco penetrar, até mesmo para mim - e cujo acesso eu não tenho o costume de franquear a qualquer pessoa. Porém, algumas coisas trazidas de lá poderiam me estimular a escrever - e eis a razão de ser deste blog.

O fato é que meu mundo interior sempre foi de extrema importância para mim. Sou o que alguns costumam chamar de uma pessoa "subjetiva". Muitas vezes, palavras que são muito usadas deixam de ser associadas, pelo falante comum, às suas raízes etimológicas: quantas vezes dizemos que estamos "desorientados", sem nos darmos conta de que essa palavra remonta à época das grandes navegações e era usada para dizer que o navegante não sabia mais para que lado ficava o leste, ou seja, o oriente? A mesma coisa acontece com "objetivo" e "subjetivo". Uma pessoa é objetiva quando, para ela, o mais importante são os objetos, ou seja, o mundo exterior, a realidade concreta; é subjetiva quando dá mais importância ao sujeito, quer dizer, ao ser humano - começando por si própria. Percebo que, mesmo quando olho para o mundo "lá fora", faço-o a partir de dentro - o que vejo, vejo por meio dessa lente. Para a pessoa objetiva, o mundo é o que é e pronto; para os subjetivos, como eu, a realidade material é menos importante do que aquilo que pensamos sobre ela. Para mim, e para os que são como eu, o mundo não está aí simplesmente para ser visto, e sim para ser visto, conhecido e interpretado.

É claro que a vida não costuma ser fácil para gente assim, que teve desde sempre o pesado encargo de empurrar a humanidade para a frente, geralmente sem contar com o estímulo ou sequer com a compreensão dos demais. Ah, você sempre imaginou que a História tivesse sido feita por homens práticos? Ledo engano. Para o homem prático do século XVI, não fazia a menor diferença que a Terra orbitasse em torno do sol ou que fosse o contrário, porque isso não afetava o seu dia-a-dia. Foi preciso um pensador visionário (visionário: o antônimo de prático) como Copérnico para dar início a uma investigação sobre esse assunto. Quando Benjamin Franklin promoveu uma demonstração pública dos poderes da eletricidade nos Estados Unidos do século XVIII, uma senhora aproximou-se dele ao fim do experimento e disse que aquilo tudo era muito interessante, mas para que servia? De fato, na época, ninguém - nem sequer o próprio Franklin - tinha idéia de para que a energia elétrica poderia servir (!). Respondeu o Da Vinci americano: "Minha senhora, para que serve um bebê?" O que mais admiro nessa resposta não é a presença de espírito de Franklin, mas a paciência que demonstrou ao responder com tamanha cortesia a uma pergunta tão estúpida. Talvez eu seja intolerante, mas me irrito com gente que não consegue entender o valor do conhecimento para além da aplicação prática imediata que ele possa ter. Se dependêssemos de gente assim, ainda estaríamos sentados no chão de uma caverna, batendo pedaços de sílex. E também não teríamos os afrescos de Michelangelo na Capela Sistina, as melodias de Mozart, nem o Guerra e Paz de Tolstoi - coisas que, de um ponto de vista puramente prático, não servem para nada...

Mas podem baixar suas armas, que eu não tenho aqui a intenção de me comparar a Franklin, Michelangelo, Mozart ou Tolstoi, nem a mais ninguém, por falar nisso.

Talvez eu subestime as pessoas em geral, mas tenho a impressão de que a maioria jamais se pergunta nada. Levantam-se sempre à mesma hora, fazem sempre o mesmo trabalho durante o dia todo, voltam para casa, engolem seu arroz com feijão (ou seu filé com champignons - não é uma questão de classe social ou econômica), assistem à novela e vão dormir, para no dia seguinte começar tudo de novo. Friso que o problema não é a rotina em si, pois todo mundo precisa ganhar seu dinheiro de alguma forma, e trabalho normalmente implica em horários fixos e atividades repetitivas. Tudo bem com isso. O problema (ou o que, a meu ver, é um problema) começa quando a vida é só isso. A maioria das pessoas vive no piloto automático. É quando ligamos o computador para redigir um texto (não porque alguém no trabalho ou na faculdade nos pediu, mas meramente porque sentimos o impulso de escrever), ou quando pegamos um violão ou uma flauta para tentar tirar algumas harmonias, ou quando encaramos uma tela vazia com um pincel na mão e uma ruga de concentração na testa, ou quando desafiamos a sensação do ridículo para subir num palco e tentar dizer algumas falas, é então que estamos nos afirmando como seres humanos, e não como algum tipo de criatura orgânica e, mesmo assim, robótica. Para isso as artes, todas elas, foram criadas, e eu iria ainda mais longe afirmando que o anseio, a inquietação básica que move o artista (ou o aspirante a tal) não é essencialmente diferente do que move o verdadeiro cientista. Criar ou investigar, inventar ou descobrir, tudo são formas que cada pessoa tocada por essa inquietação encontra para tentar deixar sua marca no mundo e, talvez mais importante que isso, para regar a sua "selva interior".

"A literatura é uma forma de protestar contra a morte." (Ariano Suassuna)

terça-feira, dezembro 23, 2008

A Síndrome


Conversando com uma amiga, pouco tempo atrás, ouvi dela uma reclamação que já havia ouvido inúmeras vezes, de inúmeras pessoas diferentes, e que, tendo ela naquele momento a necessidade (ao menos, psicológica) de fazer, tocou a mim, na qualidade de único representante do sexo masculino ali presente, o papel de "ouvidor" - que é diferente de um simples ouvinte: ouvidor era o ocupante de um antigo cargo de justiça, a quem competia, como o nome indica, ouvir as queixas das pessoas que pleiteavam alguma causa. E a queixa dessa minha amiga era: "Puxa, como é raro a gente encontrar um homem romântico..." Não me contive que não fizesse a pergunta: "E o que vem a ser um homem romântico?" Só a longa pausa que ela fez antes de responder bastou para deixar óbvio que, ao menos na cabeça das mulheres, "homem romântico" é uma daquelas coisas mais fáceis de identificar do que de definir. Quando finalmente falou, eis, mais ou menos, o que ela disse: "Ah, romântico é aquele cara que é carinhoso, gentil, atencioso, que se liga no que a namorada quer ou precisa, que não tem vergonha de fazer um carinho ou um elogio, que sabe falar coisas bonitas que façam a menina se sentir especial..." Essa definição também não era muito diferente de muitas outras que eu já tinha ouvido. Fiz minha melhor cara incrédula e rebati: "E vocês gostam disso?" A reação dela foi bem a que eu previa: pareceu chocada com a minha dúvida e respondeu com muita ênfase: "Ora, é claro que gostamos! É o que toda garota sonha!" E eu: "Então, por que agem tão em desacordo com esse desejo?"

(Parêntese 1: Se ela vier a ler este texto [e sei que vai ler], peço vênia se as frases não estiverem muito exatas, pois transcrevi tudo de memória. Se houver alguma discrepância muito grande, avise, que eu altero! :P)

Vamos falar claramente: eu, e também um ou dois amigos meus, somos caras que não temos a menor vergonha de nos dizer românticos até a medula. Correspondemos ponto por ponto a todas as exigências expressas por essa moça, e a mais algumas - e as histórias que já ouvimos uns dos outros por cima de várias mesas demonstraram que nenhum de nós é estranho à experiência de ver garotas de quem gostamos nos darem as costas para ir atrás de um ogro qualquer (sem ofender o Shrek, que é um ogro muito simpático e decente). E por cima dessas mesmas mesas instalou-se o inevitável debate: por que é que, da boca pra fora, toda mulher quer um namorado romântico - mas, na hora de encarar a situação prática, invariavelmente prefere um cara que ocupa todo um hemisfério do cérebro com o item cerveja (pois o outro hemisfério é reservado ao item futebol)? Que se esquece da existência dela durante uma inteira tarde de domingo porque o Grêmio (ou outro time) está jogando?? Que acha um saco ter que conversar com uma namorada??? Que acha que "amigo de mulher é cabeleireiro"???? Que concorda com a frase do célebre personagem de Luís Fernando Veríssimo que diz que "mulher só serve pra três coisas, e pra duas tem diarista"?????

(Parêntese 2: Um de meus amigos terminou de mastigar o que tinha na boca e tentou dar resposta a essa questão crucial: "Porque mulher é um ser ilógico!" Valeu, Albano, mas que tal me dizer alguma coisa que eu ainda não sei?)

Ilógica, toda criatura humana é, em maior ou
menor grau (embora não haja o que discutir que, nesse quesito, as mulheres são mestras, e os homens, meros aprendizes...), o que não impede que façamos escolhas baseadas em nossos desejos e preferências. Quem odeia misturebas de salgado com doce, como eu, por exemplo, não vai escolher "peru à califórnia" quando a mãe lhe perguntar o que gostaria que fosse preparado para o almoço de seu aniversário. Então, por que uma moça que sonha com atenção e romantismo escolhe quase sempre um namorado que não só arrota alto em público, como ainda se gaba disso como de um feito heróico? Um cara que não vai nem lembrar de ligar para ela no dia dos namorados? Que a trata de forma grosseira? Um sujeito com quem fatalmente ela vai se frustrar e se aborrecer?

Uma hipótese razoável é que "o que é fácil não tem graça". Talvez, inconscientemente, a mulher sinta que a companhia de um homem que sempre vai tratá-la bem e que sente sincero prazer em agradá-la oferece muito pouco em termos de "emoção". É muito mais desafiador pegar um cara que não é nem de longe romântico ou gentil, e passar anos, às vezes a vida toda, fazendo um esforço hercúleo para mudá-lo - mesmo sabendo, lá no fundo, que isso é impossível, que as pessoas não mudam, ou melhor, até podem mudar, mas somente por esforço e vontade próprios, nunca de outra pessoa... O mais patético é que, se, por força de algum milagre, ela conseguisse de fato transformá-lo, seria para logo em seguida perder o interesse por ele. O cara cafajeste é fascinante justamente por ser cafajeste: se um dia ele se apaixona e resolve se regenerar, aos olhos das mulheres seu poder de sedução desaparece.

Ou seria porque, pelas convenções que regem a sociedade, um homem muito gentil e educado é considerado pouco condizente com a figura do macho-padrão? Na Idade da Pedra, o homem que batia mais forte e gritava mais alto levava vantagem na hora da divisão da caça, o que o fazia um melhor provedor do que aqueles com menos gosto pela violência - e por isso, os "ogros" eram os preferidos pelas mulheres. Talvez as mulheres de hoje estejam muito mais próximas de suas antecessoras pré-históricas do que gostariam de admitir... Desconfio que elas gostem da idéia (eu disse da idéia, que é por natureza apenas uma abstração) de serem amadas e bem tratadas, porque, sendo criaturas mais sensíveis e delicadas, desejem ser tratadas de acordo... Só que, ao terem que escolher um companheiro de fato (um cara de carne e osso), optam pelo que coça o saco em público, só pensa em futebol, dá muito mais atenção ao carro do que à esposa e acha romantismo coisa de boiola, meramente porque a sociedade convencionou que essa é a conduta de um "homem de verdade" - e as mulheres, inconscientemente, introjetaram essa noção.

O amor tem necessariamente que ser uma coisa complicada, já que é o encontro de dois universos infinitos que são as mentes e corações de duas pessoas. Mas talvez o que mais o torna complicado seja o fato de nenhum dos dois sexos saber direito o que realmente espera do outro... Por que será tão difícil lidar com a situação de nos ser oferecido exatamente aquilo com que sonhamos? A amiga cujo desabafo inspirou este artigo chama isso de "síndrome do não-pode-ser-verdade". Será isso uma prova de que eventualmente as mulheres também podem estar conscientes do que acontece com elas?... Espero que seja.

sábado, novembro 15, 2008

O Retorno de Saturno


(Detonautas)

Visão do espaço, estamos tão distantes
se acelero os passos sigo a voz do meu coração.
Ontem eu fui dormir mais tarde um pouco.
E tudo vai indo bem...
Venço o cansaço e o medo do futuro.
No teu abraço é que encontro a cura do mal
Hoje eu acordei e te quis por perto.
E você não sai do meu pensamento
e eu me questiono aqui se isso é normal.
Não precisa ser de novo assim tudo igual.
Entre o retorno de Saturno e o seu,
busco uma resposta que acalme o meu coração.
Do amanhã não sei o que posso esperar.
E você não sai do meu pensamento
e eu me questiono aqui se isso é normal.
Você não sai do meu pensamento
e eu me pergunto aqui, se o natural
vai dizer que o amor chegou no final.
Não precisa ser de novo assim tudo igual.

quarta-feira, outubro 22, 2008

Um pouco de metalingüística


Numa de nossas últimas sessões, conversei com minha terapeuta, a Aline, sobre o ato de escrever. Depois de cerca de três anos, já ficou óbvio para ela (e acho que para qualquer pessoa que porventura, e por algum motivo, leia regularmente meus blogs) que escrever, para mim, vai muito além de um simples hobby: é uma maneira de interpretar o mundo e achar meu lugar nele.

Sendo assim, impõe-se uma pergunta um tanto óbvia: por que eu nunca me tornei realmente um escritor? Não falo nem em ter livros publicados, pois sabe-se que são dois departamentos muito distintos: há por aí excelentes escritores que nunca conseguiram publicar um livro, assim como há reles escrevinhadores que publicaram vários, sendo que alguns até venderam muito bem... Eu me consideraria um escritor se conseguisse escrever narrativas com início, meio e fim, com coerência e um padrão mínimo de qualidade. O que costuma acontecer, entretanto, é que as histórias que começo chegam a um certo ponto... e empacam. Escrever num blog é fácil e gostoso - escrever um conto ou um romance é delicioso, porém difícil pra caramba, e por vezes doloroso... Não se assustem, sei que pode soar estranho dizer que algo é delicioso e doloroso ao mesmo tempo, mas garanto que não há nenhum componente sadomasoquista aí (risos). É apenas algo que só quem experimentou pode saber como é.

Tentamos então, juntos, achar o possível motivo pelo qual minhas histórias empacam. A hipótese mais provável - continua a me parecer - é que me falta disciplina. Grandes escritores (não que eu tenha a pretensão de me comparar a eles) costumam impor a si próprios a exigência de produzir uma determinada quantidade de texto por dia, e acho que é o que eu devia fazer. A Aline então levantou a questão: será que seria boa idéia escrever contra a vontade? Forçar? Depois de pesar prós e contras, concluí que sim, esse é o caminho... Pelo menos no início.

Mestres de artes marciais dizem que treinar quando se está disposto é fazer o óbvio. Treinar quando não se está disposto, esse é que é o verdadeiro treinamento. Já dizia Thomas Alva Edison que um gênio se faz com um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração... E isso vale não só para aspirantes a gênio, como também para aspirantes a escritor: se você for esperar para escrever apenas em momentos de inspiração arrebatadora, corre um sério risco de passar a vida sem conseguir produzir nada de relevante.

Stephen King escreveu em algum lugar, ou disse em alguma entrevista (a memória me trai: sei apenas que a declaração é dele) que, para cada original que ele já entregou a uma editora, existia, no mínimo, uma quantidade equivalente de texto produzido que ele jamais mostraria a ninguém e que nunca seria publicada, ao menos não enquanto ele fosse vivo. É parte do ofício do escritor reconhecer quando algo que saiu de sua pena (ou de seu teclado, afinal estamos no século XXI...) é simplesmente horrível e nunca deveria ter visto a luz do sol... Mas também reconhecer, ao mesmo tempo, que nesse ofício, como na maioria dos outros, é preciso errar muito, produzir muita coisa ruim, até começar a acertar. E, de modo especial, não se afeiçoar demais ao que se escreve: por vezes a maneira mais certeira de melhorar enormemente um texto é simplesmente cortar e jogar fora longas partes dele. Tenho especial dificuldade com isso: tudo o que escrevo se torna querido para mim, porque custou trabalho e, às vezes, doeu para criar.

Então... Depois de tudo isso, concluo que de fato a disciplina não é menos importante para um escritor que para um atleta olímpico. É preciso escrever com constância e persistência: ao fim de cada sessão de criação decidiremos se o produto merece fazer parte da nossa obra ou se o melhor uso que pode ter é ir para a lareira (na verdade, para a lixeira do computador, aquela com o símbolo da reciclagem que está no desktop. Século XXI, lembram?). O importante é que escrevemos: não enferrujamos nem cedemos à preguiça. Com tempo e suor, é provável que consigamos apurar nossa técnica e estilo, de modo que aconteça com menos freqüência de ser necessário rasgar (deletar!) impiedosamente o produto de longas horas de labuta. E, para animar, finalizo com uma constatação: mesmo que no começo seja preciso forçar-se para escrever com regularidade, com o tempo isso não será mais necessário. Nosso relógio biológico, depois de devidamente viciado, se encarregará de avisar que está na hora de escrever...

Valeu, Aline!

sábado, setembro 20, 2008

Too Late


(Jonas Hansson/Silver Mountain)

Turn on the light, I can't see, I need a heel

Where's the sun, what has happened to me?
I cannot walk, cannot hear what you say

And I've lost all my feelings, so please

Give me the answers

I can't remember
Give me some new legs
Where is your power?


Something has happened to me, I don't know what it is
But I think that I'm dead
Trying to scream, I'm not sure if I'm dreaming
But everything changed all around

Where is the future?
I can't remember
What am I doing?
Ain't got no answer

Some people don't understand
They're just living and loving and dying
They do not search for anything
Some people don't give a damn
They're just living and loving and dying
But it's too late when you are dead

Inside my mind I can hear, I can see
But my body is stiff, that's for sure
If I could live once again I would never be sitting around
And I know

There is no answer
Do what you can
Soon you can save me
Forever and ever

Some people don't understand
They're just living and loving and dying
They do not search for anything
Some people don't give a damn
They're just living and loving and dying
But it's too late when you are dead

quarta-feira, julho 02, 2008

Humildade

Volta e meia a nos deparamos com pessoas que, ao se verem em situações que evidenciem nelas a falta de alguma capacidade intelectual que, via de regra, é considerada elementar, justificam-se, num tom levemente triste de quem se desculpa, dizendo algo do tipo "A gente somos muito humilde..." Humilde quer dizer pobre? E mesmo que seja isso, por que pobre tem que ser sinônimo de ignorante? Questão interessante...

Lembro do trecho de O Tempo e o Vento - O Continente, em que o índio Pedro Missioneiro apresenta à família Terra uma carta do coronel Pinto Bandeira para provar que, apesar de seu sotaque espanholado, já serviu como soldado nas tropas da coroa portuguesa. O velho Maneco Terra declara que ninguém de sua família sabe ler, e o autor frisa que, ao dizer isso, seu tom não sugere lamentação ou desculpa, mas é, antes, levemente desafiador (estou citando de memória, perdoem se as palavras não estiverem exatas). Isso não significa necessariamente que ele se orgulhe de não saber ler - apenas que não sente nenhuma vergonha de não ter tido a chance de aprender. Reflitam.

Claro que seria preciso ser bem mais que humilde - no mínimo, um completo idiota - para não estar ciente do fato de que muita gente não tem culpa de só saber, com muita dificuldade, assinar o próprio nome - ou nem isso. Se alguém cresceu num lugar onde a escola mais próxima ficava a quatro horas de viagem, e além disso teve que pegar numa enxada para pôr comida na mesa da família tão logo se tornou capaz de ficar em pé, seria tolo e injusto não entender que tal pessoa simplesmente não teve escolha. Por outro lado, o que devemos pensar ao ver que existem outros que apenas sentam em cima da tal "humildade" para justificar a falta de interesse em aprender um pouco mais?

É complicado fazer algum julgamento - cada caso é um caso. Algumas pessoas não são culpadas de terem um espírito anão. Umas podem usar a origem humilde como muleta para a preguiça e o desinteresse: "Sou pobre mesmo, ninguém vai ligar se eu não souber escrever direito e não tiver conhecimentos gerais, então pra que perder tempo estudando?" Outras (e isso é bem mais triste) podem ter-se deixado anular, incorporando a imagem que a sociedade preconceituosa tem delas: "Sou pobre, não adianta ficar sonhando muito, tenho que levar a vida que Deus me deu..." Por que não há ninguém para dizer a essas pessoas que, mesmo que seu padrão de vida não venha a melhorar muito do ponto de vista meramente econômico, elas podem, se quiserem, ter uma vida muito mais cheia e significativa, se apenas decidirem abrir os olhos para o mundo que as cerca, e ver o quanto de maravilhas existem nele, só esperando para serem descobertas?

E o que dizer então de pessoas nada humildes (em nenhum dos sentidos da palavra...), que tiveram e têm todas as condições, e são burras, tapadas, arrogantes e prepotentes? Quantas pessoas nós conhecemos, que passaram por uma faculdade e conseguiram a proeza de sair dela tal como entraram - perfeitos quadrúpedes pastadores?

Joaquim Maria Machado de Assis era filho de uma lavadeira e de um pintor de paredes (este, filho de escravos) e conseguiu, pelo próprio esforço, ingressar no funcionalismo público, o que lhe proporcionou um nível de vida, se não faustoso, confortável, além de tempo livre para praticar seu hobby: escrever. Nessa brincadeira, tornou-se o maior escritor da língua portuguesa e um dos maiores da literatura universal. Agora imaginem se ele tivesse simplesmente preferido se esconder atrás de sua origem "humilde" e se contentado com uma vida de poucas letras e ainda menos horizontes...

Alguém disse que cultura é uma forma de status, e outro alguém, que a opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos. Para mim, as duas frases se complementam. Pouco me importa (na verdade, não me importa um átomo) se ninguém mais no mundo entender qual a vantagem (e por que, em nome de Deus, tudo tem que trazer alguma vantagem??) de saber citar Virgílio ou de saber o que Alexandre Nevski fez na vida. Conhecer isso e outras coisas semelhantes traz satisfação para mim, faz com que eu sinta que estou tendo uma vida melhor do que teria se me contentasse em ser "humilde". E, para mim, se eu sinto dessa forma, é o que importa.

quarta-feira, abril 30, 2008

Maidens of War (tradução livre)


Pai, conta-me o que Te perturba
Como Tuas preocupações inquietam Teu filho
Eu vi os olhos dele, ouvi suas palavras
Eu percebi a angústia solene do herói.

Confia em mim, eu sou leal a Ti
Mas eu não posso matar
Teu filho, Teu sangue.

Matando, lutando pela vitória
Matando, enfrentando o inimigo
Matando, lutando, em agonia
Matando, morrendo, pela glória

Donzelas da guerra
Filhas dos deuses
Adeus - Adeus!
Donzelas da guerra

Assassino, Tu mataste Tua própria carne
Por que negas o amor com dor e morte?
Tua lança destruiu a gloriosa espada
Partida para sempre em aço sem nome.

Matando, lutando pela vitória
Matando, enfrentando o inimigo
Matando, lutando, em agonia
Matando, morrendo, pela glória

Donzelas da guerra
Filhas dos deuses
Adeus - Adeus!
Donzelas da guerra

Por quê, por quê, por que cometer tão cruel assassínio?
Por quê, por que, por quê? Estou aprisionada pelo fogo sagrado.

Donzelas da guerra
Filhas dos deuses
Adeus - Adeus!
Donzelas da guerra

terça-feira, abril 22, 2008

A Ignorância ao Alcance de Todos

Escreveu Oscar Wilde que "todo crime é vulgar, e toda vulgaridade é criminosa". É verdade que a frase está no livro O Retrato de Dorian Gray, e, se não me falha a memória, é dita por um certo lorde Henry, que vem a ser um dos personagens mais insuportáveis da literatura universal, pois parece devotar todo o seu tempo (o que não é inverossímil, considerando o completo ócio em que viviam os ingleses da classe alta naqueles dias) a elaborar frases cínicas com que entreter e escandalizar os amigos. E eu, por temperamento, tenho sempre vontade de esganar pessoas cínicas... Mas, no meio de tanta bobagem pseudo-espirituosa, o tal lorde diz, em todo o livro, umas duas ou três frases muito boas, e essa é uma delas.

Fale a verdade: você também conhece (todo mundo conhece) pessoas que, mal pegam o jornal, vão direto à página policial para ver quem matou quem e se deleitar comentando as circunstâncias escabrosas dos crimes. Claro, pode haver quem tenha um interesse científico pelos aspectos psicológicos da coisa, mas não creio que a porcentagem de pessoas com vocação para psiquiatra forense na população em geral seja suficientemente grande para explicar essa multidão de ávidos leitores de página policial - que, não raro, pouca coisa mais lêem. Parece bem mais provável que isso seja uma pista sobre a natureza da vulgaridade, sobre a qual Wilde teorizou.

Outro autor, cujo nome não lembro agora, dizia que "as grandes inteligências comentam idéias, as inteligências medianas comentam acontecimentos, os ignorantes comentam a vida alheia". É um fato da vida que a cabeça do ser humano precisa se ocupar de alguma coisa. Quem não tem acesso (seja por percalços da vida ou por própria culpa) às artes e às ciências, e portanto não conhece o tesouro de beleza e conhecimento que a humanidade acumulou ao longo de sua história - e que hoje está aí para usufruirmos, sem esquecer nosso dever de o aumentarmos para as gerações futuras - só pode mesmo deter-se em detalhes mesquinhos, no nível que sua compreensão alcança, e é para esse tipo de pessoa que adquire uma importância desesperadora saber se o vizinho do outro lado da rua está ou não enganando a mulher, ou quem matou quem na cidade durante o fim de semana. Perguntem-me se Einstein, Leonardo da Vinci ou Tolstoi saberiam dar alguma informação sobre a vida pessoal de seus vizinhos!... Eles simplesmente tinham coisas muito melhores em que pensar.

Talvez essa civilização tecnicista tenha a sua parcela de culpa, por criar na cabeça das pessoas "normais" uma tamanha desconfiança de qualquer coisa que não tenha finalidade prática. Um conhecido meu declara de boca cheia que não "perde tempo" lendo romances, que poesia é uma estupidez porque o cara "pode escrever qualquer merda que todo mundo vai achar lindo", que "não tem saco" para olhar pintura ou fotografia, e que até música ele só ouve quando está no carro. Ou seja, esse cidadão absorveu com perfeição a ideologia moderna que classifica arte como coisa inútil. Alguém pode se surpreender de que uma anta dessas esteja sempre interessadíssima em saber detalhes sórdidos da vida de vizinhos e conhecidos, ou que adore ler notícias de crimes? Sobra sempre um vácuo na nossa vida onde não conseguimos enchê-la com trabalho ou sono, e esse vácuo, de uma forma ou de outra, vai ser preenchido. Quem não cultiva seu espírito, fatalmente acabará tendo-o transformado em aterro sanitário.

quarta-feira, abril 09, 2008

Vivo

Posso pensar numa infinidade de coisas melhores para se fazer numa bela e amena manhã de quarta-feira quando se está de férias (uau!), mas, como era necessário, lá fui eu para um representante autorizado da Vivo, a fim de providenciar a troca do meu velho aparelho. Por mim, continuaria com ele, que sempre me serviu muito bem ao longo de anos, só que, como o "progresso" não pára, a tecnologia TDMA deixou de funcionar este mês; então, querendo ou não, eu teria que adotar um celular mais "muderno". Algumas semanas atrás recebi uma ligação da Vivo prometendo enviar alguém para fazer a troca na minha casa num prazo de sete dias úteis, mas, como ninguém apareceu, tive que me mexer para não acabar ficando sem o serviço.

Chegando ao local, meu primeiro pensamento foi que devia ter deixado a preguiça de lado e acordado bem mais cedo: naquele momento passava um pouco das oito horas e já havia diante da porta da loja (que só abriria às nove) uma longa fila de pessoas movidas pela minha mesma necessidade. Tomei lugar no fim da fila e coloquei nos ouvidos os fones do meu discman, que tivera a boa idéia de trazer comigo, juntamente com um bom livro. Tinha escolhido um CD de MP3 já pensando nessa situação: mais de 120 músicas de boas bandas de hard rock e heavy metal. Gosto de muitos tipos de música - rock, new age, MPB, música clássica, alguma coisa de blues... - mas, para longas esperas em filas, prefiro ouvir sons pesados, porque é melhor para isolar tudo o que venha de fora dos fones. Change to random mode and press play... (Stratovarius, Forever Free, 6:00) Enquanto o excelente metal melódico da banda finlandesa começava a se derramar dos fones, percorri a fila com os olhos e avaliei que ficaria ali algumas horas, já que cada pessoa, ao ser atendida, precisava escolher um novo aparelho, ter seu bônus verificado, e, conforme o caso, negociar a forma de pagamento, além do procedimento de transferência da linha, o que, tudo junto, deveria demorar cerca de uma hora por cabeça. Ao contrário do senso comum, que seria ter pena de mim mesmo e dos outros clientes, fiquei com pena dos funcionários, pois sei, por uma longa experiência, que só há uma coisa pior que esperar horas numa fila: estar sentado atrás de um balcão, atendendo as pessoas que esperaram horas numa fila.

(Dio, Sacred Heart, 6:20) Depois de aproximadamente uma hora na fila, por fim cheguei perto do terminal onde um funcionário distribuía as senhas, de acordo com o serviço que o cliente necessitasse. Ou seja, era uma hora de espera apenas para tirar a senha e poder realmente começar a espera que contava. Observei distraidamente uma senhora gesticulando enfaticamente e movendo os lábios com energia, enquanto o funcionário assumia aquela expressão de paciência martirizada que bem conheço. Em pensamento, dei os parabéns a mim mesmo por ter trazido o discman: sentia-me contentíssimo de não poder ouvir uma palavra do que estava sendo dito.

O fato é que, ao me ver em situações semelhantes, como costumava acontecer nos bancos há poucos anos (antes de os abençoados terminais de auto-atendimento praticamente eliminarem a necessidade de se entrar nas agências), sempre preferi aproveitar o tempo para algo de construtivo, como ler, por exemplo. Enquanto isso, a quase totalidade das pessoas à minha frente e atrás de mim usavam esse tempo reclamando azedamente umas com as outras e xingando todo mundo que lhes ocorresse xingar, desde o governo até os funcionários nos guichês. Suponho que experimentassem com isso alguma espécie de satisfação deturpada que nunca serei capaz de entender. (Edguy, Catch of the Century, 4:03) Pergunto-me, e desafio qualquer pessoa que me leia a dar uma resposta razoável: ficar se irritando e jogando bílis no próprio sangue tem o poder de fazer uma fila andar mais depressa? Então, para que desperdiçar energia com algo que terá o único efeito de tornar sua própria existência um pouco mais miserável?

A mesma coisa, com as alterações adequadas a cada situação, pode ser aplicada a um grande número de áreas da nossa vida diária, e acho surpreendente que a vasta maioria das pessoas nunca se dêem conta disso. O stress existe, é uma realidade e por vezes não temos como fugir dele - mas por que não nos contentamos com o stress que a vida se encarrega de nos impor, e ainda fazemos questão de nos estressar voluntariamente quando isso é desnecessário e inútil?

quarta-feira, abril 02, 2008

As Quatro Estações

Eu não poderia apostar minha cabeça na exatidão da data, mas acho que foi por volta do final de 1989 que o Legião Urbana, uma das bandas mais importantes da história do rock nacional, lançou o que, em minha modesta opinião, é o melhor disco de sua carreira: As Quatro Estações. Quem conhece a trajetória da banda sabe que seu vocalista e mentor, Renato Russo, tivera seu período punk/revoltado, que gerou, em discos anteriores, algumas músicas que valiam por um soco na boca do estômago de certos setores da sociedade e por um grito de alerta contra uma série de absurdos. Já em As Quatro Estações, Russo dava a impressão de estar mais aquietado e introspectivo, ainda preocupado com o mundo, é claro, mas preferindo focar a maneira como o indivíduo se relaciona com ele.

Disse que creio que As Quatro Estações saiu no final de 1989 porque lembro com toda a clareza possível que esse disco teve um papel fundamental na minha vida durante os dois anos seguintes, quando cursei as duas últimas séries do segundo grau (na época, ainda não se falava em "ensino médio"). Tinha 16 e 17 anos, às voltas com todas as penas, sonhos e desafios da adolescência, e começando a ter a percepção clara de que o fato de me sentir tão diferente de todo mundo não era apenas mais um desses complexos adolescentes que ficam para trás assim que o organismo dá um jeito de compensar os excessos hormonais, mas algo com que eu teria de lidar, da melhor maneira que pudesse, pela vida afora.

Ouvir o Legião Urbana, e principalmente as músicas de As Quatro Estações, me acalmava e trazia um certo alívio, pois fazia com que meu mundo parecesse encontrar o seu eixo, e fazer sentido, mesmo que de forma diferente do mundo onde viviam meus colegas. O vozeirão de bronze de Renato Russo, embalado pelo instrumental simplíssimo mas agradável da banda, falava de coisas que eu entendia, e que seria capaz de jurar ser o único em todo o planeta a entender. Falava das coisas que eram importantes para mim, das coisas em que eu acreditava, das coisas que, ao mesmo tempo em que me afligiam, traziam uma inexplicável satisfação, porque, se eu as sentia, era porque era humano, estava vivo e estava me tornando um homem - não mais um menino.

Foi nessa época que tentei montar uma banda de rock (nem preciso dizer que o Legião comparecia com uma boa porcentagem do nosso repertório à base de covers), também foi quando me apaixonei pela segunda vez na vida e aprendi que o sentimento vem com um sabor diferente quando é por uma pessoa diferente. Hoje me parece inadmissível que mesmo um rapazinho de 16 anos se apaixone por uma garota sobre a qual não sabe coisa alguma, exceto que tem um rostinho encantador, mas adolescência é adolescência... É preciso dar um desconto.

Uma das músicas mais interessantes de As Quatro Estações era Monte Castelo (uma das manias de Russo era batizar algumas músicas com títulos que aparentemente não tinham qualquer ligação com o conteúdo da letra, ou que, mais provavelmente, deviam ter uma ligação que somente ele sabia qual era). Eis aqui a letra:

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua do anjos
Sem amor, eu nada seria...
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece...

O amor é o fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer...

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria...

É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder...

É um estar-se preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor
É um ter com quem nos mata lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor...

Estou acordado todos dormem,
todos dormem, todos dormem
Agora vejo em parte
Mas então veremos face a face
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade...

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua do anjos
Sem amor, eu nada seria...

Como eu lia de tudo, vorazmente, desde a infância, identifiquei sem dificuldade os recortes do soneto mais famoso de Luís de Camões (1524?-1580) e da Primeira Carta aos Coríntios escrita por São Paulo, diferentemente de meus colegas, que, ao verem a professora de Literatura, certa manhã, escrever no quadro aqueles versos, exclamaram, muito surpresos: "Tem uma música assim, 'sora!" Anos mais tarde, na faculdade, outros colegas tinham absoluta certeza de que a parte sobre a língua dos homens e dos anjos era de Camões - por causa da música, sem dúvida. Mas deixa pra lá.

Para efeitos de comparação, aqui vai um trecho da Carta aos Coríntios:

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. O amor é paciente, é benigno, o amor não inveja, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz incovenientemente, não procura seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal, não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais há de acabar. Tempo haverá em que as profecias desaparecerão, as línguas cessarão e a ciência será abolida, e só o amor permanecerá. Porque em parte conhecemos, e em parte profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, o que é imperfeito será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, apreciava como menino. Quando me tornei homem, dei de mão as coisas que eram de menino. Porque agora vemos como num espelho, obscuramente, e então veremos face a face; agora conheço em parte, e então conhecerei como sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor. Porém, dos três, o maior é o amor.

Em muitas Bíblias, encontraremos a palavra caridade no lugar de amor. É porque o texto original era em grego, e a língua grega tinha quatro palavras para designar amor, sendo que, no momento, só me lembro de três. Eros é o amor sentimental e sexual, o amor de amantes; filos é a amizade; ágape (vertido para o latim, cáritas) é o amor de que fala o apóstolo, o amor desinteressado que deseja o bem de todos. Algo, como se vê, infinitamente maior do que a idéia que se tem de "caridade" hoje, que consiste basicamente em dar esmola aos necessitados. Mas creio que, em sua essência, o amor, quando é verdadeiro, tem basicamente as mesmas características, seja qual for o tipo.

Até onde pude ver, a única parte em toda a letra que não é de Camões nem de São Paulo é "Estou acordado todos dormem". Uau! Por que esse pequeno verso, jogado no meio de tanta coisa linda, teria mexido tanto comigo? Tanto quanto o outro sobre "solitário andar por entre a gente", que eu igualmente entendia, ao menos entendia o suficiente para aplicá-lo a mim, aos meus assuntos, aos meus dramas.

Por estranho que pareça, o amor não requer necessariamente um ser que ama e outro que é amado, e não estou falando apenas de amar sem ser correspondido. Ao menos algumas pessoas sabem o que é sentir o amor dentro de si sem ter absolutamente ninguém a quem dirigi-lo, e, no entanto, senti-lo, de forma inconfundível. É como se ele estivesse à espera de algo, mas, de vez em quando, essa espera o deixasse impaciente e ele reclamasse nossa atenção, mesmo não havendo ninguém a quem dedicá-lo. E, como em tantas outras coisas, nisso as pessoas são diferentes. Em algumas, o amor dentro delas é como um pequeno regato que corre de forma constante e não incomoda muito - o que não significa que não possa, no momento oportuno, transformar-se num rio Amazonas, mas normalmente ele não é assim. Em outras, esse amor expectante é um oceano, às vezes plácido, às vezes turbilhonante, mas sempre um oceano, algo tão imenso que não se entende como cabe dentro da gente.

Acho que, na realidade, o amor nasce com a gente, acho que o levamos conosco a vida inteira, como um botão que não desabrocha até o momento em que é tocado pela mão certa. E pode acontecer de levarmos o botão para o túmulo conosco, ainda fechado... Porém, uma vez aberta, essa flor nunca, jamais murcha, ainda que sejamos obrigados a carregá-la na travessia do deserto. Sua beleza nos inspira, seu perfume nos dá energia, e seus espinhos por vezes nos machucam... Mas não há outra maneira de poder dizer que realmente vivemos.