terça-feira, dezembro 25, 2007

Índios

Todo final de tarde de domingo, preciso cumprir o ritual de me dirigir à estação rodoviária de São Leopoldo, a fim de retornar para a cidade onde trabalho. Há sempre uma certa melancolia nisso, já que significa voltar para um local e um trabalho onde, se pudesse escolher, não estaria. Entretanto, a viagem em si, que para muita gente seria aborrecida, eu consegui transformar num momento agradável: reclino o banco, ponho os fones nos ouvidos e, durante essa hora e meia, "viajo" também no sentido mental do termo, e, embalado pela música, ponho-me a pensar em milhões de coisas, das mais simples às mais profundas, o que sempre me faz chegar ao destino com novas idéias ou, no mínimo, com a cabeça um pouco mais clara. Naturalmente que é preciso uma certa dose de sorte, pois ocasionalmente, dependendo dos companheiros de viagem que se tenha, o ônibus pode virar uma feira livre... Mas não é esse o meu tema de hoje.

Na maioria das vezes, há meia dúzia de crianças pedintes circulando pela rodoviária, crianças que não se distinguiriam de dezenas ou centenas de outras espalhadas por toda a cidade, não fosse o fato de seus traços fisionômicos, tom de pele, tipo de cabelo e modo de falar as identificarem como descendentes de índios, o que, pelo menos para mim, dá muito em que pensar.

Parece haver algum método e organização no modus operandi dessas crianças: enquanto algumas se posicionam estrategicamente junto aos guichês de venda de passagens para tentar conseguir as moedas que os passageiros porventura recebam de troco, outras percorrem a área de espera entre as duas fileiras de boxes, às vezes pedindo uns trocados, outras vezes tentando vender peças de artesanato - feitas com inegável habilidade, mas sem praticamente nada a ver com qualquer coisa que represente uma cultura verdadeiramente indígena. A impressão que se tem é de que esses meninos e meninas foram orientados - quem sabe, treinados - para pedir, aí usado como verbo intransitivo, pois pedir o que é o de menos. Parece que o importante é pedir tudo o que for possível, mesmo sabendo de antemão que é impossível receber, para depois verificar se o obtido serve para alguma coisa ou não. Certa vez um menino de uns seis anos me disse daquele jeito trôpego de quem não está acostumado a falar português: "Me... dá... es... se... ra... dinho?" (apontando para meu discman) Em outra ocasião, eu estava trocando as pilhas do citado aparelho quando outro menino me pediu as pilhas velhas. Nem faço idéia do que pretendia fazer com elas. De resto, embora trabalhem, de certa forma, em equipe, o senso de solidariedade e companheirismo não parece estar muito em alta: uma vez dei um pacote de biscoitos para dois garotos, e imediatamente tive que apartá-los, pois os dois começaram a brigar por ele na minha frente mesmo, sem que lhes ocorresse a idéia de dividir.

O que mais me pergunto é se essas crianças têm alguma consciência do fato de que a terra onde elas e seus pais hoje levam essa existência precária, é a mesma da qual seus ancestrais um dia foram donos e senhores. É óbvio que têm pouco estudo, se é que têm algum, e, de mais a mais, não me consta que a educação formal oferecida em nossas escolas enfatize muito a triste história do destino que tiveram os habitantes originais do que hoje chamamos de nosso país, mas será que alguma coisa nesse sentido é passada de pais a filhos? Será que essas crianças sabem o que é ter uma história, por mais revoltante que seja? Não se preocupem, não vou desfiar aqui aquele discurso batido e absurdamente ingênuo que quase sempre aparece quando se fala nos brasileiros nativos: sei muito bem que a idéia de um "paraíso terrestre, habitado por povos inocentes e de coração puro, que viviam em perfeita harmonia com a natureza e uns com os outros" é uma rematada tolice, e que, muito antes de o primeiro europeu aqui pôr o pé, o continente americano já estava cansado de conhecer guerra, miséria, escravidão, exploração do homem pelo homem e todas essas outras mazelas ditas "civilizadas", pois o homem é o homem em qualquer lugar e seja qual for a raça. Porém, sempre é triste observar a perda da dignidade de qualquer ser humano, quanto mais a de povos inteiros. Mesmo que sua realidade estivesse longe de qualquer coisa paradisíaca, fosse por vezes difícil e violenta, esses povos tinham seu orgulho, sua cultura própria, seus meios de subsistência e sua liberdade - enfim, tinham as coisas essenciais que são, ou deveriam ser, direitos inalienáveis de todo ser humano, e diante das quais todos os confortos da "civilização" não passam de miudezas. E coisas que, uma vez perdidas, dificilmente são recuperadas.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Amando como homem


Numa recente noite de insônia, sem nada de especial a fazer, peguei na minha estante de livros o primeiro volume de As Brumas de Avalon e pus-me a reler alguns trechos meio a esmo. Faz alguns anos que li esse ambicioso romance em quatro volumes, que a autora, a americana Marion Zimmer Bradley, definiu como uma versão das lendas arturianas narrada do ponto de vista das mulheres. De fato, o livro tem um tom marcadamente feminino e, não raro, feminista. Não se pode negar que Bradley tinha um estilo hipnotizante, que tornava quase impossível não gostar de suas histórias, mas nesse, como em outros de seus livros, há detalhes que incomodam o leitor do sexo masculino. A autora põe muita ênfase no fato (que é fato: não tenho a mínima intenção de discuti-lo) de que existem sentimentos, vivências e idéias que as mulheres conhecem e que os homens jamais serão capazes de compreender - mas não parece lhe ocorrer em momento algum que talvez a recíproca também seja verdadeira.

Certa vez, num período em que estava desempregado, trabalhei em sistema free lancer para uma moça, advogada, que estudava história e sociologia por hobby e estava escrevendo um livro sobre "a condição feminina através dos tempos e suas repercussões no Direito contemporâneo". Meu trabalho consistia em ler trechos de diversos livros, fazer resumos, digitar e formatar o que ela escrevia, e assim por diante. Certa tarde em que se sentia particularmente cansada de sua rotina, que incluía o trabalho como advogada, dar aulas na faculdade, e ainda o livro, ela desabafou comigo que às vezes tinha vontade de "assumir seu papel de gênero" - o que, em bom português, quer dizer virar uma dondoca inútil. Olhei bem para ela e respondi que devia considerar-se com sorte de poder fazer isso, se um dia realmente quisesse, pois nós, homens, nem esse direito temos. Na hora, ela riu muito, mas tenho esperança de que mais tarde tenha refletido um pouco a respeito. O que quero dizer é isto: imagino que ser mulher não seja nada fácil, mas seria bom se fosse lembrado com mais freqüência que ser homem também não o é. Nós nunca vamos ter idéia do que é o martírio periódico de um ciclo menstrual, mas, da mesma forma, elas jamais serão capazes de imaginar o que é levar um chute no saco. Se ambos os lados simplesmente reconhecessem isso, metade das dificuldades no relacionamento entre os sexos estaria aplainada.

Acreditem, moças, pode ser revoltante viver numa sociedade que quer fazer com que vocês representem um papel de submissas, frágeis e dependentes - mas não é nada fácil viver nessa mesma sociedade que nos cobra que temos que ser fortes o tempo todo. Pior: a concepção de "força" aí envolvida é ridícula. Parece que demonstrar ternura a quem se gosta não é um comportamento que se admita naquilo que Luís Fernando Veríssimo denomina jocosamente de HQH ("homem que é homem"), parece que ser forte não é compatível com doçura ou generosidade, parece que o cara só será considerado "macho" pelos seus pares se for bronco e insensível. O adolescente que, numa daquelas rodas de pátio de escola, não se gabar da quantidade de garotas com quem "ficou", preferindo declarar que gosta de uma e só quer ela, será considerado, no mínimo, esquisito pelos colegas. Há até quem sustente que o natural no ser humano, ou ao menos nos homens, seria a poligamia, como acontece com a maioria das espécies na natureza. A explicação para a suposta tendência masculina para a poligamia e feminina para a monogamia seria então biológica: espermatozóides são baratos, já óvulos são caros, ou, melhor explicando, cada um dos sexos tem uma maneira diferente de garantir a perpetuação de seu patrimônio genético, que é o objetivo final da reprodução e, por conseguinte, de tudo o que direta ou indiretamente derivou dela, como essa coisa maravilhosa, terrível e totalmente sem sentido que nós, humanos, convencionamos chamar de amor. Para o macho, a maneira mais eficiente de passar adiante os seus genes seria fazendo sexo com o maior número possível de parceiras. Já a fêmea, que tem que arcar com todas as dificuldades da gestação e do cuidado com a prole, precisaria, por razões práticas, ser mais seletiva na escolha de parceiros. Porém, quem defende essa teoria esquece um detalhe fundamental: ao contrário dos outros animais, o ser humano tem livre arbítrio. Pode escolher agir assim ou assado, não precisa necessariamente ser um escravo dos instintos - embora também possa escolher ser isso, se quiser. O que eu queria aqui era apenas ressaltar como a combinação de elementos biológicos e culturais, encarados de uma maneira torta, criou na sociedade ocidental moderna uma idéia de "ser homem" que não satisfaz àqueles que, mesmo correndo o risco de serem tachados de ingênuos, ainda querem acreditar nos valores humanos essenciais.

A noção comumente aceita do que seria "masculinidade" é mais uma entre tantas pedras no caminho de quem, embora nascido com testículos, ousa ser romântico, sente a necessidade de entregar-se para valer quando gosta de alguém, ama sem meias medidas, não consegue gostar "um pouco", quer de verdade fazer a pessoa feliz, esforça-se por ser totalmente reto, claro, limpo e sincero, e só não se doa mais quando a moça não o permite. O amor parece ser um pouco como a política do Brasil: tanto num quanto na outra, parece que quem teima em agir com honestidade tem uma vida muito mais difícil do que quem opta pela pilantragem.

sábado, dezembro 01, 2007

Gethsemane

(Tuomas Holopainen / Nightwish)

Toll no bell for me, Father
But let this cup of suffering pass from me
Send me no shepherd to heal my world
But the Angel - the dream foretold
Prayed more than thrice for You to see
The wolf of loneliness in me
...not my own will but Yours be done...

You wake up, where's the tomb?
Will Easter come, enter my room?
The Lord weeps with me
But my tears fall for you

Another Beauty
Loved by a Beast
Another tale of infinite dreams
Your eyes they were my paradise
Your smile made my sun rise

Forgive me, for I don't know what I gain
Alone in this garden of pain
Enchantment has but one truth:
I weep to have what I fear to lose

You wake up, where's the tomb?
Will Easter come, enter my room?
The Lord weeps with me
But my tears fall for you

"I knew you never before
I see you never more
But the love, the pain, the hope, O beautiful one
Have made you mine, 'till all my years are done"

Without you
The poetry within me is dead

domingo, novembro 04, 2007

Todos os Nomes

"Um nome, que há num nome?", pergunta-se na peça de Shakespeare uma Julieta que novas e estranhas emoções tornam propensa a rompantes filosóficos pouco comuns para os seus 14 anos. E prossegue: "O que chamamos rosa, com qualquer outro nome teria o mesmo doce aroma". A rigor, essa sentença tão simples é sem dúvida verdadeira, mas, ainda que a ligação entre o nome e a coisa que ele designa seja fruto de mera convenção, não se pode pôr em dúvida que se trata de uma ligação extremamente estreita e forte. Num certo sentido, o nome é a coisa, e vice-versa.

Por essa razão, tenho para mim que uma das mais importantes decisões que nossos pais tomam ao longo de suas (e nossas) vidas, é a escolha do nome que nos hão de dar. Um nome forte, ainda que simples, e, se possível, escolhido também pelo seu significado, um nome que, depois de adultos, nos diga algo sobre nós mesmos, e com o qual nos sintamos à vontade como se fosse uma segunda pele, é um presente de valor inestimável.

É inevitável refletir sobre isso quando, no trabalho, lida-se diariamente com dezenas de pessoas, olha-se seus documentos, tomando contato com tantos nomes e com uma parte das histórias dessas pessoas. E é curioso observar como as preferências na hora de dar nomes às crianças parecem ter variado ao longo do tempo. Pessoas idosas tendem a ter nomes compridos, como se, três gerações atrás, os jovens pais de então fizessem questão de dar aos seus rebentos um mínimo de quatro sílabas: são Enedinas, Nazeazenos, Ornalinas, Astrogécilos, Dorcelinas... Suponho que, na época, isso fosse considerado elegante. Em todo caso, embora muitos desses nomes não sejam encontráveis naqueles interessantíssimos livros que investigam a origem e o significado dos nomes próprios, eles foram provavelmente dados como homenagem a alguma pessoa que os teve antes; de alguma forma, têm sua história.

O que realmente dá pena é ver os nomes que muitos pais de tempos mais recentes deram e estão dando aos filhos. Mesmo sem me interessar por futebol, é fácil notar que ouvir a escalação dos times é uma das melhores maneiras de se tomar contato com nomes "exóticos". O que um sujeito chamado Richarlyson, Odvan ou Rosinei iria fazer com um nome desses se não se tornasse um jogador de futebol? Até compreendo que, para seus pais - provavelmente gente simples, de poucos recursos e poucas letras - tenha parecido uma boa idéia escolher (ou inventar...) nomes "diferentes", que fossem "distinguir" os filhos em meio às multidões. Nunca achei oportuno perguntar a alguém com um nome desse tipo sua opinião, mas, pessoalmente, eu preferiria me chamar João (ainda que só na minha turma da escola houvesse mais três) e poder abrir um livro e descobrir que meu nome significa "Deus me Favorece", do que ter um nome que ninguém mais tem e que não significa coisa alguma, pelo simples fato de que não existia até meus pais sentarem diante de um tabelião e declararem que eu me chamaria assim ou assado. Para pior, tais nomes não serão únicos por muito tempo: já deve haver por aí pais/torcedores tirando certidão de nascimento para seus pequenos Richarlysons...

Até nomes de origem clássica podem tornar-se de gosto duvidoso, dependendo do motivo pelo qual são dados. Que o diga a pequena multidão de Édipos e Jocastas que hoje devem estar no fim da adolescência e que assim se chamam por obra e graça de certo autor de telenovelas que, lá pelo fim dos anos 80, decidiu se inspirar na obra de Sófocles para escrever mais um folhetim.

O pior de tudo são os falsos estrangeiros. São tantos Máicons, Diônatans, Uésleis, Tiarles, que carregarão pela vida afora o peso dessa combinação de pouca cultura com a vontade de pôr nomes diferentes. Meses atrás, atendi no meu local de trabalho um jovem de seus 20 anos cujo RG o identificava como "Diéssi" - na certa, o pai simpatizava com algum personagem de filme ou seriado americano conhecido por Jesse. Tive ímpetos de procurar algumas palavras de consolo para dizer ao rapaz.

Mas toda regra tem sua exceção, e, vez por outra, e ainda bem, mesmo um nome desse tipo pode ser usado com satisfação por quem o tem. Tive em tempos uma amiga muito querida que se chamava Deise - e, independentemente de ser um falso estrangeiro, sempre achei que o nome lhe assentava muito bem. Perguntei-lhe se sabia o significado. Ela sabia: vem do inglês "daisy", que quer dizer margarida. Acrescentei outra informação: a palavra no inglês moderno deriva da expressão anglo-saxônica para "olho do dia" (Day's Eye), como a flor era conhecida entre os antigos ingleses. A moça adorou saber disso. "Um nome, que há num nome?" Num nome há muita coisa, jovem Julieta.

sábado, outubro 13, 2007

Vinci e poucos

O sonho da argila

O vocábulo puro, em que me amparo,
esquiva-se a meu jugo, e raro canto.
Que a palavra da boca é sempre inútil
se o sopro não lhe vem do coração.

Mudo, contemplo os valorosos feitos
de quem funda caminhos sobre os mares
e edifica cidades, e ergue torres
de cujo topo logre dominar
o mundo inteiro
- e ver que o mundo é pouco.

Ante os que, cegos, trabalham a terra,
sorvendo-lhe os tesouros mais esconsos,
sem assombro, no convívio dos bois,
com eles aprendendo a ser humildes,
e dormem, vinda a noite, sossegados,
- permaneço calado, e todavia
algo em mim lhes inveja esse dormir.

Não me pranteio por saber-me turvo
ou por não me caber a paz dos brutos.
Sei que morro amanhã, mas não me louvo
a sóbria face que disfarça o medo.

Move-me ao canto ver que a sombra cresce
dentro de mim, enquanto um sol avaro
esplende oculto - em céus só vislumbrados
quando a argila, grotesca e ousada, sonha.
E ver o inútil dessa argila em sonho,
mais que mover-me ao canto, me comove.

Thiago de Mello

* * *

Gosto muito de poesia de diversos tipos, mas tenho uma tendência a apreciar de modo muito especial os poemas que dizem as coisas que eu próprio gostaria de dizer, se soubesse como. Aqueles que a gente lê e, simultaneamente à admiração, sente uma ponta (ou um iceberg) de inveja: "Deus do céu, o que eu não daria para ter escrito isso!" Um dos mais admiráveis exemplos da minha galeria é o poema acima, de autoria do amazonense Thiago de Mello - um poeta, diga-se de passagem, que mereceria fama muito maior que a que tem.

O motivo de gostar tanto desse poema em particular é que ele levanta uma questão com a qual eu próprio me debato. Muito já se disse e escreveu sobre a "solidão do gênio" - mas como se arranjam os que sofrem dessa mesma solidão, sem ao menos serem gênios? É natural que todos os que realizam grandes coisas sejam, inevitavelmente, criaturas solitárias, mas ao menos eles têm a consciência de suas realizações para se confortarem... E como ficam os que vivem no "limbo", os que pensam, e por isso perderam o direito à tranqüilidade da ignorância (a "paz dos brutos" de que fala Thiago de Mello), mas não têm suficiente talento para grandes feitos?

O simples fato de alguém adquirir um bocadinho de cultura, e, conseqüentemente, desenvolver uma mentalidade que ultrapasse ligeiramente o medíocre, basta para condenar essa pessoa a uma solidão não menos dolorosa do que aquela que devia afligir Leonardo da Vinci - mas sem trazer como compensação a capacidade de pintar uma Mona Lisa, arquitetar edifícios grandiosos, inventar máquinas mirabolantes, falar várias línguas, esculpir, compor, tocar vários instrumentos musicais... Entre outras "coisinhas" que esse senhor fazia.

A sensação de estar sempre nadando contra a correnteza é aflitiva, e ainda mais aflitiva se torna quando nos damos conta de que há mais: quando se está nadando contra a correnteza e, além disso, nadando no meio de uma multidão de pessoas que nem percebem que existe uma correnteza. Perceber que todo o nosso sistema de valores é particular - quer dizer, que temos noções diferentes das de todos sobre o que é importante e o que não é - implica uma visão diferente do mundo. Num certo sentido, em viver num outro mundo. Um mundo onde ter cultura vale mais que ter um peitoral definido, onde o conhecimento deve servir para fazer de nós seres humanos mais plenos, e não meramente para ganhar dinheiro, um mundo onde nenhum carro do ano na garagem e nenhum nível de status valem o ato de vender a alma a um sistema desumano.

Entendo que Thiago de Mello fala da aflição de estar acordado num mundo onde todos parecem profundamente adormecidos, e, para além disso, da outra aflição, a de saber que outros que despertaram antes de nós realizaram grandes feitos pelos quais serão lembrados para sempre, e que isso não é para todos - nem mesmo para todos os que estão acordados. Porém, há o conforto de saber que, mesmo sem fazer algo que ponha nosso nome nas páginas da História, podemos fazer algumas coisas para que este mundo ganhe um pouco mais de sentido.

Estar acordado vale a pena.

domingo, outubro 07, 2007

The Mask and Mirror

The Dark Night of the Soul

Upon a darkened night
the flame of love was burning in my breast
And by a lantern bright
I fled my house while all in quiet rest.
Shrouded by the night
and by the secret star I quickly fled
The veil concealed my eyes
while all within lay quiet as the dead.

Chorus:

Oh night thou was my guide
oh night more loving than the rising sun
Oh night that joined the lover to the beloved one
transforming each of them into the other.

Upon that misty night
in secrecy, beyond such mortal sign
Without a guide or light
than that which burned so deeply in my heart.
That fire t’was led me on
and shone more bright than the midday sun.
To where she waited still
it was a place where no one else could come.

Chorus

Within my pounding heart
which kept itself entirely for her
She fell into her sleep
beneath the cedars all my love I gave.
From o’er the fortress walls
the wind would brush her hair against her brow.
And with its smoothest hand
caressed my every sense it would allow.

Chorus

I lost myself to her
and laid my face upon my lover’s breast
And care and grief grew dim
as in the morning’s mist became the light.
There they dimmed amongst the lilies fair
there they dimmed amongst the lilies fair
there they dimmed amongst the lilies fair.

* * *

Lembro bem de quando e como conheci Loreena McKennitt. Foi no quente e sufocante início de 1996. Eu tinha 21 anos e, pela primeira vez, estava num emprego que durou tempo suficiente para que eu precisasse passar um verão sozinho na cidade, enquanto o resto da família ia à praia. Era um emprego não muito diferente do que tenho agora - igualmente burocrático e desagradável. De férias da faculdade, adquiri o hábito de fazer um, como dizem, "happy hour": ao largar o trabalho no final da tarde, antes de ir para casa, passava pelo shopping da cidade para um café ou um sorvete e para desanuviar um pouco a cabeça. Depois, dispensava o ônibus e ia para casa a pé.

Ocasionalmente, visitava a loja de CDs do shopping, a BeBop (será que ainda existe em algum lugar?). O vendedor me conhecia e sabia que, embora eu fosse muito seletivo, não tinha o costume de economizar quando alguma coisa me agradava, de modo que não fazia objeção a que eu ficasse um tempo ouvindo alguns CDs. Foi dessa forma que, por puro acaso (ou assim me pareceu), certa tarde pus no player um disco intitulado The Mask and Mirror, de uma (para mim) totalmente desconhecida cantora chamada Loreena McKennitt.

Sua música me impressionou de saída. Não podia ser facilmente definida, nem mesmo sob o rótulo "new age/world music", que naqueles dias aceitava praticamente qualquer coisa. A voz de Loreena é ao mesmo tempo suave e poderosa, altamente disciplinada, e os músicos que a acompanham, de altíssimo nível, manuseiam diversos instrumentos exóticos, de sonoridade inusitada. As músicas têm um quê de celta, mas não se limitam a isso - um campo já tão exaustivamente explorado por centenas de artistas -, unindo ainda elementos melódicos árabes, ibéricos, orientais, além de outras coisas que até hoje não fui capaz de identificar. Um som único, envolvente, rico, vigoroso, sensual, impossível de descrever. Só mesmo ouvindo para saber. E as letras não ficam atrás, pois, além de ser uma poetisa de muito mérito, Loreena é também uma pesquisadora de fôlego, capaz de adaptar e utilizar o melhor da poesia universal, e não só de língua inglesa. Em The Mask and Mirror, por exemplo, a música Prospero’s Speech é uma adaptação de um trecho da peça A Tempestade, de Shakespeare, enquanto a própria canção de que quero falar, The Dark Night of the Soul, nada mais é que uma versão belíssima para o poema Noche Oscura ('Noite Escura'), de São João da Cruz.

A primeira coisa que fiz foi comprar o CD e levá-lo para casa. Quase todas as noites daquele longo verão, daí em diante, cumpri o ritual de apagar a luz, me deitar, pôr os fones e ouvir mais uma vez esse disco fantástico, que me falava, através da música e da poesia, de coisas belas, às quais valia a pena almejar. As recordações desagradáveis do dia de trabalho, das tarefas rotineiras, das pessoas mal educadas, dos colegas que só sabiam discutir aos berros sobre futebol, tudo isso se dissolvia sem que eu precisasse fazer nada, a não ser me entregar à beleza da música. Quando o disco terminava, eu estava suspirando fundo, me sentindo em perfeita paz, e pronto para uma noite de sono revigorante.

Também tratei de saber quem tinha sido esse São João da Cruz, e isso não foi tão fácil, pois, na época, internet era algo de que os mortais comuns apenas estavam começando a ouvir falar. A biblioteca da Unisinos quebrou meu galho. São João da Cruz foi um monge carmelita espanhol, nascido em Fontiveros, na região de Ávila, em 1542, e falecido em Ubeda em 1591, no dia 14 de dezembro, data na qual sua memória é agora celebrada pela Igreja. Em 1726 foi canonizado pelo papa Bento XIII, e, em 1952, eleito patrono dos poetas espanhóis.

João da Cruz é reverenciado não apenas por católicos - foi um grande místico e um poeta de enorme talento, coisas pelas quais pode ser admirado por gente de qualquer religião, ou até por quem não acredita em coisa alguma. Sempre foi comum que religiosos se dedicassem à poesia com temas sacros, mas ele se destacou, não apenas por fazê-lo com uma força artística muito acima da média, como também por seus poemas se prestarem a mais de uma leitura. Seus versos parecem por vezes impregnados de uma carga de erotismo que pode soar perturbadora, quando se recorda que quem os escreveu era um religioso. A metáfora de Noche Oscura - a alma humana, em seu desejo de encontrar Deus, sendo comparada a uma jovem que anseia por estar com seu amado - não é inédita na poesia cristã, e já não o era no tempo em que viveu o nosso poeta, mas duvido que alguém mais tenha tratado o tema de uma forma tão doce e pungente quanto ele. E a adaptação de Loreena não deixou que se perdesse nada da beleza e da emotividade da poesia original.

Meus leitores que tiverem percorrido com atenção a transcrição que fiz da letra de The Dark Night of the Soul certamente terão notado que ela aparece aqui como tendo sido escrita do ponto de vista de um homem. No original não era assim: João da Cruz escreveu Noche Oscura com um eu-lírico feminino, já que a alma era figurada como uma moça que escapa durante a noite para encontrar seu amado. Loreena McKennitt, claro, manteve a coisa assim. Quem fez essa alteração, trocando todos os pronomes masculinos - he, his - pelos correspondentes femininos - she, her - foi este que vos escreve, naquele verão há quase 12 anos. Copiei a letra, com essas adaptações, e a preguei na parede do meu quarto. Não havia perigo de ter que dar explicações, pois ninguém da minha família sabia inglês suficiente para ler aquilo.

Essa mexida no poema foi uma maneira que encontrei de me apropriar um pouco dele. E quis fazer isso porque essa canção foi minha primeira lição sobre o fato de que o amor pode existir sem ter um objeto. Enquanto estava deitado no escuro, ouvindo The Dark Night of the Soul, eu podia senti-lo em mim, com uma nitidez e uma certeza que não deixavam dúvidas. Simplesmente não havia ninguém a quem oferecer esse amor, nem sequer alguém a quem dirigi-lo - em 1996 eu estava sozinho fazia tempo, e não havia conhecido mais ninguém que me des-pertasse interesse -, mas o desejo de amar e de dar amor estava ali, não menos forte por ser indefinido. Um desejo tão intenso que era quase doloroso, de ter alguém com quem partilhar aquele momento, aquela canção, alguém a quem abraçar, mexer em seu cabelo, olhá-la nos olhos e sentir que fazíamos o mundo melhor, ao menos um para o outro. Um desejo impossível, mas isso é assim mesmo: não raro, as coisas que mais vale a pena desejar são precisamente aquelas que não se pode ter.

O poema fala sobre um desejo de entrega, de se abandonar ao ente amado, dar-se por inteiro a ele ou ela. João da Cruz não precisava preocupar-se com isso, já que estava falando da comunhão da alma humana com Deus, mas suponho que, por conta disso, minha adaptação soe estranha a muita gente. Nossa (nossa?...) cultura parece só considerar esse sentimento justificável para o sexo feminino, ou assim era antigamente - hoje em dia, nem mesmo para o sexo feminino: tanto homens quanto mulheres usam a palavra "amor" a torto e a direito, sem o menor critério, e geralmente, para evitar mal-entendidos, deve-se traduzir "amor" como significando simplesmente sexo mecânico, apenas para satisfação física, sem conexão alguma com coisas tão "bregas" quanto carinho, ternura, respeito ou importar-se um com o outro. De todo modo, parece que "não fica bem" a um homem ter o desejo de amar com essa intensidade, querer pertencer à amada, fazer-se com ela uma só pessoa, ansiar sinceramente por fazê-la feliz. É mais uma coisa, entre tantas, a fazer com que eu me pergunte de que mundo vim e o que estou fazendo neste.